Do povo, pelo povo e para o povo
O povo não é um detalhe nem uma abstração. A obviedade da assertiva se faz necessária diante de tantas decisões que se tomam em nome do povo e que, examinadas quanto ao nexo, perdem, frequentemente, sentido. Examine-se, por exemplo, a qualidade de leis, projetos, planos, programas e medidas administrativas aprovadas e implantadas pelas esferas políticas e governamentais do país. Quantas delas preenchem verdadeiramente o escopo democrático definido pelo conceito do povo, pelo povo e para o povo? Fosse o País administrado sob a rigidez deste princípio basilar da democracia, teríamos seguramente maiores índices de satisfação e bem-estar social.
E como isso não ocorre, o que vemos é uma intoxicação das ações governamentais, caracterizada por multiformes práticas de corrupção que acabam induzindo o povo à deseducação e à incultura. Na verdade, a cultura da corrupção está profundamente impregnada na vida nacional. Começou com a colonização, as capitanias hereditárias, o sistema de mando que fatiou a geografia do País com os primeiros donatários. Um exame da partilha política no País, Estado por Estado, há de mostrar que ainda persiste a raiz feudal, presente nos grupos familiares que dominam parcela apreciável do sistema de poder.
Como se rompem as fortalezas feudais do País? Só há uma resposta: por meio do voto. E como o voto pode redistribuir o poder, tornando viáveis os ideais do povo? A resposta é: melhorando sua qualidade, aperfeiçoando-se o critério de decisão. E como isso pode ser conseguido? A única resposta: pela via da educação. Um povo educado é o caminho da emancipação da Pátria. Por isso mesmo, interessa a muitos donos do poder a manutenção do status quo.
Nas últimas eleições, por exemplo, levas de prefeitos foram eleitos não porque apresentaram as melhores propostas ou defenderam os ideais do povo. Ganharam porque compraram votos, esvaziando cofres municipais, distribuindo benesses, abrindo imensos buracos que procurarão tapar durante quatro anos de administrações inócuas.
Sabe-se de municípios falidos, onde centenas de pessoas acenam com cheques sem fundo, distribuídos por cabos eleitorais e prefeitos corruptos, mancomunados com burocratas imorais, promotores e juízes tolerantes, ineptos e também corruptos. Incrível, porém verdadeiro: em muitas cidades, quem paga a conta da Justiça (aluguel de casas de promotores e juízes) é a própria prefeitura, para vergonha dos Tribunais de Contas dos Estados e emporcalhamento da própria instituição jurídica. Como podem julgar prefeitos com isenção?
Aliás, que conceito ético têm os TCEs, que, na imensa maioria, acabam fazendo aprovações mais políticas que técnicas? E será que a moralidade do Ministério Público restringe-se apenas às grandes capitais, onde promotores destemidos e dignos cumprem com fidelidade sua missão de defender a sociedade?
A relação simbiótica de corrupção entre política e Justiça acaba afastando o povo, mais ainda, dos poderes constituídos. O Brasil não aguenta mais segurar a corrente criminosa que age nas malhas intestinas do poder, unindo interesses individualistas de vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores, líderes locais, grupos familiares. Há que se promover a retidão, a lealdade. Conta-se que o Duque Ai perguntou a Confúcio: Mestre, o que devo fazer para conquistar o povo? Ele respondeu: Promova os homens retos e coloque-os acima dos tortos, e conquistarás o coração do povo. Homens retos estão rareando entre nós.
Há uma pequena rua, em Londres, cheia de lojinhas, que vendem os mesmos tecidos, dos mesmos padrões e, incrível, pelo mesmo preço. Nem um centavo a mais ou a menos. Um brasileiro foi ali pechinchar. Surpreendeu-se, quando o dono de uma das lojinhas recusou-se a vender o tecido. Ele vira o brasileiro sair de outra loja. Apontou: A sua loja é aquela. Ali, naquela ruazinha, cultiva-se a retidão, a lealdade, a honestidade. É o exemplo de uma cultura sem barganhas e emboscadas.
Infelizmente, estamos
anos-luz distantes desse sonho. A política corrompe o povo e este, inculto, acaba votando em pessoas corruptas. Estamos dentro de um círculo vicioso. Mas não se deve perder a esperança. A fé acabará removendo montanhas. Com educação, nosso povo, lúcido e racional, palmilhará caminhos mais retos.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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