Do panfleto para a internet' - Boataria virtual' deve marcar eleições
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sábado, 28 de junho de 2014
Luís Fernando Wiltemburg<br>Reportagem Local 
Desde as eleições mais recentes, a internet se torna o palco mais democrático para o embate político. Independente dos recursos da campanha, qualquer candidato pode divulgar ações, discursos, vídeos e interagir com seus eleitores.
Mas, por outro lado, a rede mundial de computadores também traz o lado obscuro das guerras eleitorais, com a possibilidade de ataques de adversários e difamações, de origem nem sempre facilmente identificáveis. E, com a popularização do acesso às redes sociais, a propagação de mentiras se faz de forma ainda mais eficiente, com compartilhamentos que funcionam como jogar plumas do alto de uma torre.
Para o professor de Filosofia Política da Universidade Estadual de Londrina Elve Miguel Cenci, o poder de fogo da boataria virtual, o alcance e a alta capacidade de estrago à imagem do concorrente torna o estratagema bastante atraente, ainda mais aliado ao modo efêmero que as questões são tratadas pelos internautas.
Os próprios candidatos já têm equipes especializadas para atacar e contra-atacar nos ambientes virtuais, onde é possível ser agressivo às escondidas, sem perder a pose de bom moço.
Boataria em época de eleição não é coisa nova, mas, na campanha deste ano, os próprios candidatos já preveem que haverá uma guerra muito forte contra isso no mundo virtual. O que fomenta esse comportamento de compartilhamentos, sem sequer checar aquilo que se passa para frente?
Em primeiro lugar, isso (boatos eleitorais) já existia e se fazia através do panfleto. Às vésperas da eleição, saía alguém distribuindo um panfleto para a cidade dizendo que fulano de tal fez isso. A capacidade de estrago político que provocava nos adversários era limitada porque, primeiro, era fácil de achar o autor. Segundo porque atingia um número bastante limitado de pessoas. Com as novas tecnologias, é possível colocar muita gente trabalhando nisso e os candidatos e pré-candidatos têm não só ataque, mas contra-ataque, e até recorrem a ações judiciais contra o que sai na internet. Nas redes sociais, isso se multiplica: há um número muito maior de pessoas e há, de forma reiterada, boatos que vão se espalhando, alguém vai curtindo, compartilhando, divulgando. Os boatos, hoje, adquirem um poder de estrago numa campanha eleitoral muito maior que no passado. Boa parte do que circula na internet é uma informação que, uma vez postada, não se sabe a origem e não se checa a origem. Não se sabe se é verdadeiro ou falso. Foi o que ocorreu, na campanha passada, da discussão sobre o aborto com a Dilma. Os próprio eleitores, participando do debate eleitoral, vão criando interpretações e acrescentando dados e fatos novos a um boato. Outra coisa é que as campanhas têm sido bastante agressivas, algumas discussões têm tido muita virulência, basta ver o debate sobre a Copa. A discussão fica em segundo plano. Tem grupos que tentam defender a Copa, outros que tentam atacar, como parte do embate eleitoral, é muito difícil hoje discutir qualquer assunto tanto em âmbito nacional quanto em âmbito estadual justamente em virtude do embate dos candidatos e desses grupos mais aguerridos e de apoio aos seus políticos. E aí fica uma disputa pouco racional e muito emocional em torno da defesa ou ataque dos candidatos. Os boatos entram nesse ambiente pouco racional e de quase vale-tudo, e há um outro elemento, que é uma ficção: a ideia da invisibilidade. O fato de não estar frente a frente, mas em minha casa, no meu computador, me torna invisível e inatingível. Então, posso colocar para fora tudo que eu penso e sinto, inclusive comentários que dificilmente alguém faria justamente pelo caráter agressivo, preconceituoso, discriminatório, de qualquer natureza. Fica alimentado por causa da certeza ficcional da invisibilidade, a ideia de que posso até mesmo agredir aquele que eu não gosto porque estou protegido por um manto de invisibilidade que se chama computador. Obviamente, há ações judiciais que mostram que isso é um mito, é possível alcançar qualquer um que emita comentários inadequados.
Tomando com base esses compartilhamentos, uma reprodução em larga escala, o usuário reflete antes sobre o assunto, ou simplesmente repassa adiante alguma ideia com a qual ele concorda?
Existe um tempo curto de permanência do indivíduo naquele site ou assunto. A pessoa entra, olha, pensa algo rapidamente, posta, curte ou compartilha e já muda para outro assunto. Ou seja, há uma adesão bastante irrefletida acerca do conteúdo recebido. Percebe-se isso em comentários altamente questionáveis e que não se sustentam, o que se justifica pela falta de informação antes de partilhar, e compartilhar significa publicar. E hoje, qualquer cidadão é produtor de conteúdo. Escreve artigos, comentários, e tem um poder de influência sobre algumas pessoas: se tem mil seguidores, tem mil que partilham aquele Facebook, aquelas redes sociais, tem mil pessoas que vão ler o que está ali e algumas compartilharão. Então, esse indivíduo é um produtor de conteúdo e os comentários deles são conteúdos. Essa é uma característica do nosso tempo e é isso que dá esse poder às redes sociais em relação ao que tínhamos no passado, porque esses indivíduos são produtores e disseminadores de conteúdo. E aí, frente a um comentário, já escreve algo e já aumenta, vai criando toda uma interpretação para aquele boato inicial e isso vai ganhando uma proporção maior à medida que, naquele grupo de cem pessoas que partilharam, os próprios posicionamentos daqueles indivíduos repercutem o conteúdo original e já dá uma dimensão maior.
A produção de conteúdos já vem desde a época dos blogs, mas nas redes sociais existem os especialistas do mundo virtual...
A internet é um espaço onde todo internauta é um "especialista": ele tem uma opinião e a explicita, vai produzir conteúdo sobre a matéria. Mas nesse campo, ao contrário dos blogs, que tinham características mais de artigos, a rede social é o comentário. Ninguém escreve textos longos, tem como característica textos breves, uma opinião. Não tem fonte, não tem pesquisa, não tem trabalho de investigação, de fundamentação mais consistente. É o espaço do palpite. Não há tempo para checagem, não é uma opinião fundamentada e a pessoa permanece naquela postagem por pouco tempo, para ler e comentar e então, seguir para outro assunto. É um ambiente bastante superficial, mas não deixa de alimentar boatos que carecem de sustentação, mas se espalham e produzem um efeito político e eleitoral.
Houve avanços na legislação eleitoral do ponto de vista do uso da internet como plataforma de campanha, mas e para lidar com o comportamento do eleitor nas redes sociais?
A legislação sempre vem a reboque. Só tem uma preocupação quando tem fatos reiterados que demandam essa preocupação. Então, a tendência é da próxima eleição ter uma preocupação maior da legislação a respeito dos fatos que ocorreram nessa. Mas, dentro de certos limites, a legislação contempla isso. Agora, a boataria é inevitável. No passado ocorreu, deve ocorrer de novo, ou seja, os candidatos sabem que, se plantar um fato, a sua interpretação pode produzir algum estrago. Hoje é notório que o candidato que agride, que tem uma posição mais agressiva no debate eleitoral, perde votos. A rede social virou um espaço do ataque. Deixou de ser propaganda eleitoral. O candidato que ataca, comete suicídio. Londrina é um exemplo, na eleição passada, o Marcelo (Belinati) era o bom moço. Quando começou a chegar no fim da eleição, ele percebeu que não conseguiria ultrapassar um limite e partiu para o ataque. Os marqueteiros sabem: atacar o adversário é cometer suicídio, o eleitor rejeita quem ataca. Então, não dá mais para atacar na tevê, lá faz cara de bom moço. Aí, o ambiente virtual é o espaço do ataque, porque vem revestido de uma outra roupagem. Não é o candidato que faz, o departamento de ataques virtuais é impessoal, não tem cara. É feito por anônimos, a serviço do candidato, mas sem a cara dele. O sujeito que vê o ataque não vincula uma coisa com a outra e isso não produz o desgaste eleitoral que produziria no candidato que vai para a tevê, olha o adversário e faz o ataque.
Quem é mais suscetível à propagação da boataria?
Os que mais alimentam esse embate virtual são os membros das classes A e B. Esses são os que mais trabalham com esse tipo de informação. Porque é exatamente ali que se dá o embate ideológico mais intenso, porque uma parcela da população faz escolhas políticas a partir de uma percepção pessoal. Há 20% que vota no PT, 20% que vota no PSDB, mas e os outros? Os outros 60% votam a partir da perspectiva do cidadão daquele momento eleitoral. Ele não é de nenhum partido. Ele escolhe o partido a partir da avaliação que faz do conjunto: quanto dinheiro ele ganhou nos últimos tempos, do quanto foi beneficiado em políticas públicas, como saúde, educação e outros setores. É um eleitor que não tem escolha ideológica, até porque não tem muito o que escolher devido ao caráter absolutamente similar dos partidos políticos. Vai perceber que, no embate eleitoral, se atacam, mas são muito parecidos. A maioria dos partidos tem escândalos de corrupção, tem práticas políticas muito parecidas, e esse eleitor avalia, naquele momento, qual candidato atende melhor seus anseios. Sobretudo nas classes A e B temos esse embate mais virulento, por vezes mais ideológico, um embate de concepções distintas, mas que tem a ver muito mais com as percepções do indivíduo sob o ponto de vista ideológico, o ponto de vista dele sobre os candidatos do que o embate ideológico entre os partidos. Cada vez mais, são mais parecidos entre eles e o embate eleitoral é muito mais por poder que por ideias. Agora, uma parte desse eleitorado passa para a sociedade seu ponto de vista, de viés mais ideológico.


