Ele é morador do Jardim Santiago 2, mas o Eucaliptos nunca lhe foi um lugar estranho. Era a ''área'' dos parentes e por ali ele percorreu longos trechos com sua bicicleta. Nos passeios, um lugar o intrigava: um muro. Um muro difícil de transpor.
Para Fábio Brandão Macena, 17 anos, a extensa proteção de concreto da Milenia, uma gigante na área de defensivos agrícolas e que ocupa ampla área no bairro, guardava um mundo desconhecido. ''Nem imaginava o que existia do lado de dentro.''
Anos depois, ele saciou sua curiosidade da melhor maneira. Junto com seus 19 colegas do Formare circula desenvolto pelos modernos escritórios, ganha os gramados bem cuidados, chega à escola, que de tão limpa e nova parece uma clínica de alto padrão. Se mesmo assim restavam segredos, seus professores os dissiparam. E Macena foi descobrindo novos horizontes, passando a observar muros com outro ponto-de-vista. ''Sempre que posso, comento com meus amigos como são as coisas aqui. Faço propaganda do projeto mesmo, e gostaria que outras pessoas pudessem estar no meu lugar.''
Ele continua voltando para casa, encarando a realidade de um bairro pobre. Há pouco, sua mãe uma empregada doméstica perdeu o emprego, que assegurava R$ 240,00 a mais para a família. ''Aumentou minha responsabilidade'', constata.
Antes do Formare, o adolescente recebia uma diária de R$ 5,00 em um lava-rápido. Já ajudou o pai como servente de pedreiro. Está no segundo ano do ensino médio e se considera um aluno esforçado. Sua meta é fazer curso superior de Administração de Empresas.
Usou seu plano de saúde, consultou-se com um oftalmologista e com o dinheiro da bolsa comprou óculos, uma necessidade que adiou por muito tempo por não ter como pagar. Não dorme mais no chão, pois comprou uma cama. Como ainda é um adolescente, não esqueceu de comprar roupa e tênis.
Para ele, o muro da Milenia não existe mais.

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