Do jato à vaca louca
Já se perde na memória o ano de 1921. Dessa data em diante, as autoridades brasileiras haviam proibido a importação de animais da Índia e da África, sob a alegação de que uma peste bovina ocorrida no Brasil teria tido origem naquelas regiões. Antes disso, apenas criadores do Triângulo Mineiro, especificamente os de Uberaba, haviam importado o zebu. Foi então que Celso Garcia Cid, de Londrina, cuja persistência só não era maior do que sua paixão pelas raças zebuínas, empreendeu em 1957 um fantástico esforço para trazer da Índia, os animais de sua predileção.
Depois de anos de lutas contra a burocracia estatal e dificuldades sem conta em terra e no mar, a vitória do perseverante espanhol que se tornou brasileiro se consumou, e às vésperas do Natal de 1960 os animais foram descarregados na Fazenda Cachoeira, de sua propriedade. Essa determinação marcou os destinos da pecuária do Brasil. Conforme disse Celso Garcia Cid, minha intenção é a de dar ao nosso País o privilégio de formar um rebanho de alta categoria. E foi isso exatamente o que aconteceu, pois agora temos um dos melhores rebanhos do mundo.
Nosso gado hoje alcança, portanto, excelentes condições para a exportação. E num momento em que a Europa enfrenta a doença da vaca louca, poderíamos suprir aquele mercado com a carne cujo padrão é superior ao do gado confinado dos Estados Unidos e do Canadá. No ano passado, as exportações de carne bovina industrializada para os EUA foram de US$ 82 milhões e de US$ 5,5 milhões para o Canadá. E isso poderia ser aumentado dentro da conjuntura do momento.
É preciso que se diga, também, que o irreversível processo de globalização em curso não é um bem ou um mal em si, dependendo do uso que dele façam os respectivos governos e as sociedades de cada país. Assim, quando a competição se acirra em todo o mundo, uma política brasileira adequada, coerente, realista e firme, que dispensasse os tradicionais punhos de renda ou os arroubos fora de propósito, contribuiria muito para alavancar nosso progresso em todos os setores da economia, incluindo o da agropecuária. Quando somos contra nós mesmos, nada nem ninguém pode nos ajudar, e seria ilusório querer ver nas relações de mercado atitudes filantrópicas.
Desse modo, torna-se imprescindível a defesa dos nossos interesses, não sendo tolerável que a UE lance a suspeita da doença da vaca louca sobre a carne brasileira por motivos meramente comerciais e não reais. Enquanto isso o Canadá, numa atitude que segundo o próprio governo o surpreendeu, suspendeu a importação de carne bovina e em conserva do Brasil, o que passa a nítida impressão de retaliação por conta da briga Embraer/Bombardier. Como os Estados Unidos e o México compõem o Nafta, acompanham o Canadá na decisão, o que complica ainda mais a situação.
Em toda essa questão fica a lição relativa à necessidade do governo e dos pecuaristas brasileiros se prepararem melhor para enfrentar a concorrência com os mais fortes, através de medidas preventivas e efetivas. No caso do governo, informou o embaixador José Alfredo Graça Lima que no dia 1º foi enviado à Agência de Inspeção Alimentícia Canadense o questionário com os dados solicitados sobre os animais importados do Reino Unido, Alemanha e França.
Mesmo que os técnicos do governo digam que não havia prazo para que as respostas fossem remetidas à agência, a demora sem dúvida facilitou a decisão política do Canadá, e falhas como esta não poderiam acontecer quando se disputa mercado com concorrentes de tal porte.
Tampouco foi ultimamente demonstrado o rastreamento dos animais vindos da Europa, ou apresentado o tipo de ração que é dada ao nosso gado, que é do tipo vegetal e não animal como no caso do gado europeu, o que facilita naqueles países a doença da vaca louca na medida em que há a possibilidade de serem ingeridos restos provenientes de animais infectados.
Assim, o Brasil continuou deitado em berço esplêndido, esperando que o mercado viesse até nós num mundo onde a competição econômica com a formação de grandes blocos é cada vez mais acirrada e as questões políticas mais complexas.
Enquanto isso, segundo a Embaixada do Canadá, a Argentina e o Uruguai responderam à consulta. Em que pese esses dois países latino-americanos não fazerem frente ao Brasil em termos de concorrência mundial em nenhum setor da economia, agiram prontamente não oferecendo brechas, o que ocorreu no nosso caso. Portanto, não basta dizer que no Brasil não existe a doença da vaca louca, como de fato não existe, mas é preciso também provar que temos condições de competir em termos otimizados que incluem qualidade com sanidade.
Da parte dos produtores rurais diante dessa conjuntura difícil, é preciso lembrar que, se no passado um grande pecuarista descobriu o caminho da Índia, hoje nos compete redescobrir as rotas internacionais mesmo quando às vezes se tenha que navegar contra a corrente. E para isso teremos que provar uma realidade que já conhecemos internamente: o rebanho brasileiro possui alta categoria genética em termos mundiais, temos condições climáticas ideais para a formação de pastagens e produção do boi verde e terras de qualidade excepcional. Ressalte-se ainda que nosso rebanho é o maior em número de cabeças no mundo, em termos comerciais. E tudo isso, sem dúvida, assusta nossos concorrentes.
- FRANCISCO LUIZ PRANDO GALLI é engenheiro agrônomo e presidente da Sociedade Rural do Paraná, em Londrina





