A polêmica em torno do filme O Que é Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto, é de uma estupidez comovente. A cobrança de fidelidade histórica do roteiro de Leopoldo Serran, adaptado do livro de Fernando Gabeira, equivale à desqualificação do Fausto, de Goethe, por nunca ter havido pactos com o demônio ou do banimento do Êxodo da Bíblia, por ser impraticável atravessar um oceano a seco. Apesar do considerável abismo, em termos de qualidade estética, entre os exemplos, eles servem para situar outra distância, a existente entre verdade e verossimilhança.
Dos historiadores deve ser exigida a verdade, nada mais, nada menos do que a verdade, ou, pelo menos, o que mais se aproximar deste ideal, provavelmente inalcançável. Dos artistas é lícito esperar que removam o fundo falso dos fatos e de seus atores, ou seja dos fatores, algo menos definido e, por isso mesmo, mais difícil de ser alcançado. A verdade estética é mais complexa e mais misteriosa, mas nem por isso menos legítima, do que a verdade histórica. Esta se explica nas aparências, aquela se justifica nas essências.
O filme de Bruno Barreto não é um documentário sobre o sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, no Rio de Janeiro, em 1969, mas uma história de aventura, política, amor e emoção, que tem como pretexto o tal sequestro, ou seja um thriller. Seu ponto de partida não é a História com H capital, tal como ela ocorreu no dia-a-dia, mas um texto literário.
O livro de Gabeira, aliás, também entrou no pelourinho a que o filme homônimo foi submetido. Isso ocorreu por motivos semelhantes: na aparência, por falsear a verdade histórica; de fato, por resultar em verdade artística de altos coturnos, para usar uma expressão militarista, bem a gosto das viúvas de Jonas. Digo Jonas, a personagem do filme, não o militante da Aliança Libertadora Nacional com idêntico codinome. E digo viúvas, por sentir na campanha contra filme e livro a nostalgia do velho ranço maniqueísta dos tempos neles retratados.
O livro mereceu o êxito de mercado, obtido à época do lançamento e ora repetido, seja por causa do lançamento cinematográfico, seja pelo debate por este provocado. O segredo do sucesso do texto é o fato de ter leitura muito agradável: o autor consegue enredar o leitor naquele ‘‘conluio sedutor’’, de que fala o linguista norte-americano Frank Kermode. E mereceu todo o sucesso obtido pelo volume e relevância das informações trazidas à tona sobre um período importante de nossa História recente.
O livro de Alberto Berquó, O Sequestro Dia a Dia, que acaba de sair, na certa é muito mais fidedigno à realidade dos fatos do que o de Gabeira. Mas só isso é insuficiente para lhe dar qualidade literária e assegurar, assim, um lugar à cabeceira dos pósteros. Ao contrário do que imaginam os entusiastas do livro de Berquó, ser informado de ter sido Franklin Martins, e não Gabeira, o verdadeiro redator do manifesto dos seqestradores, é tão irrelevante, para qualquer leitor, quanto saber quem dirigia o automóvel que fazia a segurança para a kombi que transportou o sequestrado. Falta ao livro recente qualidade literária até para lhe garantir uma carona confortável na repetição do sucesso do mais antigo, que originou fita e celeuma.
Este, sim, continua tendo tudo para despertar interesse no leitor e, por extensão, no espectador de cinema, por revelar os recônditos do antigo, peculiar e renitente autoritarismo à moda brasileira. Este se manifesta, seja no espírito aventureiro e irresponsável dos meninos de boas pinta e família, que resolveram tomar as dores e os interesses do povão em suas mãos sem consultá-lo, seja na brutalidade banal de que os agentes da ordem se muniram para combatê-los, em defesa de uma civilização que, de acordo com todas as evidências por eles mesmos produzidas, nunca respeitaram.
Não vai ser compulsando os resumos de arquivo, reproduzidos no livrinho de Berquó, que o leitor se ilustrará a respeito desse tema. Para tal fim, será mais recomendável acompanhar com atenção, e evidente deleite, as desventuras de dona Mocinha, a matriarca que protagoniza a peça teatral Do Fundo do Lago Azul, de Domingos de Oliveira, em cartaz em São Paulo até fins de junho. As expressões e sensações num dia rotineiro de uma família comum da aristocracia decadente, transformada em classe média baixa, mas ainda com todas as pompas e circunstâncias, no Rio de Janeiro dos anos 50, fazem emergir, sim, o verdadeiro Brasil profundo, mais do que todos os detalhes passíveis de serem obtidos na reprodução fanaticamente exata de episódios históricos.
Para isso, servem o teatro e a literatura, formas engenhosas que o homem encontrou de contar mentiras sedutoras capazes de revelar toda a verdade, mesmo a mais repugnante. Quanto ao cinema, trata-se de um espetáculo, como o circo. Quem quiser aprender História não deve procurá-la no escurinho das salas de exibição, mas nas iluminadas classes escolares.

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