O aumento nas últimas semanas nos preços do litro do etanol apresenta uma interrogação no consumidor brasileiro em relação às características do programa federal de incentivo a este combustível, tido como alternativo e ecologicamente limpo. De fato, ergue-se uma nova barreira para uma fonte energética que desde a criação, em 1975, de um programa governamental de incentivo à produção e consumo (o Proálcool) passou por inúmeros impasses, abandonos e, inclusive, abusos por parte do próprio governo, pelos usineiros e também pelos consumidores.
  O programa foi fruto da crise energética de 1973, o chamado ‘‘choque do petróleo’’, quando os países que formavam o bloco dos maiores produtores mundiais do óleo, Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), quadriplicou os preços do barril do produto, provocando a corrida das nações industrializadas por formas alternativas de energia, além de demonstrar o poderio das empresas petroleiras e a extrema dependência que as sociedades diante o petróleo e seus derivados.
  No Brasil, subdesenvolvido, o ‘‘choque’’ não atingiu tão bruscamente o sistema econômico, industrial e de transportes, pois o país ainda consolidava sua transição demográfica do campo para as cidades, e a Petrobras, recém-criada, de certa forma aliviou a pressão dos preços internacionais; seu parque gerador elétrico estava (e ainda está) baseado principalmente nas hidrelétricas, pouco dependendo das usinas que poderiam utilizar o petróleo como combustível. Entretanto, havia ainda a preocupação pela busca de fontes alternativas de energia, criando-se assim o Proálcool, em 1975, e relançando o projeto em 1979.
  O programa apresentava uma proposta ampla de incentivos aos plantadores de batata, mandioca, mamona e a cana-de-açúcar. Os interesses principais, porém, estavam direcionados apenas aos produtores de cana, que vivendo das oscilações do mercado de açúcar, em crise na época, tinham a opção da produção do álcool combustível, além de disporem de uma área plantada já consolidada e com boas possibilidades de expansão, ao contrário das demais opções, que ou por serem gêneros alimentícios para o abastecimento do mercado interno ou pela pouca produção em escala nacional, tinham poucas chances de fazer frente aos canaviais. Havia também o subsídio às indústrias automobilísticas que promovessem seus carros com a tecnologia do álcool. Portanto, o programa governamental ficou estabelecido em um tripé: necessidade de substituição do petróleo, produção dos canaviais e a participação das marcas de automóveis, tudo isto, evidentemente, patrocinado pelo governo federal.
  O programa caiu num certo ostracismo a partir de 1986, falhando por concentrar a produção nas mãos dos canavieiros, que podiam optar pela fabricação de açúcar ou de álcool, dependendo dos preços de mercado. O sucesso ou não do programa havia ficado preso aos produtores, deixando os consumidores e a indústria automobilística receosos de continuar apostando num programa dependente de interesses de um grupo.
  Entre 2007 e 2008, houve a retomada pelo governo federal do Proálcool, agora sob a denominação Etanol, como uma fonte ecologicamente correta de combustível. O então presidente Lula percorreu diversos países divulgando esta ‘‘joia’’ da agricultura nacional, destacando o know-how brasileiro e as expectativas do futuro. Porém, concentrou a produção, juntamente com os valiosos subsídios governamentais, nas mãos de apenas um tipo de fonte, a cana (e também nas mãos de um único grupo), mesmo que tenha sido anunciada a utilização de outras matérias-primas.
  Hoje estamos novamente pagando o preço desta dependência. Os preços exorbitantes do álcool, aliados aos impostos, mostram a continuidade das administrações políticas deste país e o descaso com a população.

ROGER D. COLACIOS é historiador em Londrina e doutorando em História Social pela USP

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