Conforme este Jornal comentou na coluna ''Seu Dinheiro'', não há quem conheça melhor a vida financeira das empresas do que os contabilistas. Porque eles dispõem de números em mãos, e os indicativos não são animadores. A classe empresarial está empobrecendo, porque passou a vender patrimônio para pagar contas e manter suas empresas funcionando. Com expectativa de crescimento pífio de apemas 3% no exercício que ora se fecha, não há sinal de melhora para 2007, embora, pelo entusiasmo de alguns titulares do Governo - incluído o presidente Lula - a economia crescerá 5% no próximo exercício. Um porcentual aleatório, porque até agora não se conhece algum projeto governamental consistente que possa concretizar uma tal meta.
Uma das razões da situação de risco em que as empresas se encontram é o endividamento da classe média, que é uma das alavancas da economia brasileira. As vendas parceladas, a prazo longo, atraem os consumidores. Mas amarrando-se em dívidas, na continuidade eles acabam consumindo menos em outros setores. Se a empresa sofre, é ela também um dos agentes da sua péssima condição econômica, porque ao estabelecer longas prestações, a juros elevados - inclusive pela dependência das financeiras - faz com que o consumidor pague quase o dobro por um produto. Os compradores não fazem esse cálculo, porque ficam seduzidos pelo produto e pelo baixo pagamento mensal - dentro de seu orçamento e às vezes extrapolando - e assim acabam deixando de comprar outras coisas de que necessitam, e o fluxo cai.
Se as empresas bancassem os financiamentos e não cobrassem jugos acima do índice da inflação, não haveria sangria e, com gastos domésticos controlados, o ritmo de compras seria gradual e contínuo. Tornando-se às vezes inadimplente, o consumidor fica incapacitado de pagar a dívida assumida e de adquirir novos bens e serviços. Quem sofre consequências é, por extensão, também a economia do País, porque sem solidez do consumidor os negócios rodam juntos. A empresa passa, assim, a ser geradora de alguns de seus próprios problemas financeiros e dessa forma muitos perdem: ela mesma, o consumidor, a receita. Só as financeiras ganham, porque se cercam de garantias.
Com políticas públicas já pouco favoráveis, o sistema de arrochar no juro das prestações se volta contra o próprio setor lojista. O crédito fica perverso quando dependente das instituições financiadoras, que nada mais são do que bancos. Assim, gera-se custo alto do dinheiro num país de inflação baixa. Políticas de contenção da inflação esbarram no descontrole paralelo gerado por esse sistema um tanto salgado de venda a prazo dilatado e a juro exorbitante. A equipe econômica do Governo não se atém a esses casos, mas deveria agir mediante medidas de controle e contenção. Não se pode confundir livre comércio com excessos.

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