Dívida familiar e estabilidade
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) se especializou em dar notícias otimistas nos últimos meses. Tudo está bem; tudo estará ótimo. Não foge dos demais órgãos oficiais que primam pelo positivismo. Nunca houve tantas estatísticas apontando o bom momento econômico, principalmente para o pobre. É verdade, felizmente, mas não se deve descartar uma pontinha de interesse político nessa onda ufanista. Faz parte. O Brasil está colhendo os frutos da experiência de vários planos econômicos, o último, e que se sustenta, é justamente o plano implantado por governos anteriores.
Um exemplo do culto a essa forte onda otimista é o índice de endividamento das famílias. Sempre foi divulgado como uma informação de rotina, apoiada em dados estatísticos (números frios, reais), com análise de ordem técnica, critério que confere credibilidade em todas as avaliações. Porém, desde alguns meses, os resultados vêm com conotação otimista. Exemplo: ao divulgar dados sobre endividamento das famílias, a informação vem acompanhada da interpretação comemorativa. Diz-se, então, que o nível de endividamento das famílias ainda é baixo, sugerindo uma situação de conforto, mantida por uma política governamental de defesa do interesse da maioria.
O mesmo Ipea, porém, informa que o nível de endividamento das famílias brasileiras ainda é baixo. Mas, entre as que têm dívidas, cerca de 38% afirmam não ter condições de pagar suas contas atrasadas no mês seguinte. As informações são de pesquisa domiciliar realizada pelo órgão e compõem o Índice de Expectativa das Famílias (IEF), que mede o grau de otimismo quanto à situação socioeconômica do País. Segundo dados apresentados ao repórter Glauber Gonçalves, 11,08% das famílias pesquisadas afirmaram estar muito endividadas, ao passo que cerca de 72% declararam estar pouco endividadas ou não ter dívidas. É um número aceitável, claro, para não dizer otimista. A certa altura da análise, vem a frase sutil do presidente do Ipea: É fundamental que o Brasil m a n t e n n h a esse ritmo de expansão econômica; isso dará mais conforto a essas famílias, para que tenham condições de pagar suas dívidas. Traduzindo: portanto, gente, é importante manter as caisas assim, certo?





