Dívida externa: o peso da escravidão - Dom Geraldo Majella Agnelo
Dom Geraldo Majella Agnelo
A expressão dívida externa vem de longe, mas assumiu um destaque particular depois da Segunda Guerra Mundial, quando alguns dentre os países vencedores aqueles mesmos que eram os mais ricos decidiram reservar para si o papel de banqueiros do Planeta.
Praticamente tudo começou com o Plano Marshal, criado com o objetivo de recuperar os países, especialmente a Alemanha, que havia perdido a guerra. Como bons banqueiros, os salvadores do mundo forneceram esses recursos para a sua recuperação material e econômica, mas impuseram condições, que se revelaram, em muitos casos, perversas, e que, ainda hoje, colocam em evidência a força do poder econômico.
Verdadeiramente bem organizados, os países ricos criaram o famoso Fundo Monetário Internacional (FMI) e, semelhante a este, o Bid e o Banco Mundial, com sede na América do Norte, e o Club de Paris, com sede na Europa.
Na fase mais simples, tudo funciona com uma grande oferta de recursos para, por exemplo, financiar a nação pobre. Uma nação com uma vocação originária para atividades simples, como aquelas agrícolas comerciais de nível primário, recebe uma oferta de recursos para industrializar-se. Recebe, em particular, dinheiro a título de empréstimo para obras civis. Estas obras, via de regra, são executadas por empresas com sede nos países ricos; daí... novo financiamento para a aquisição dos maquinários que são fabricados e, ou, vendidos para países ricos. A mão-de-obra, especialmente aquela especializada, vem de lá, isto é, dos países ricos, dado que, assim é dito, essa é necessária na fase inicial.
Além dos elevados juros exigidos, no momento da estipulação dos empréstimos, são impostas condições rígidas, como, por exemplo, a abertura do mercado a favor de empresas estrangeiras, e a privatização das empresas nacionais, cuja aquisição, geralmente por empresas estrangeiras, é acompanhada de generosas facilidades, permissão para a remessa dos lucros para os países ricos etc.
Com estas cláusulas rígidas e severas, o país devedor jamais conseguirá pagar o débito. Por esta obrigação devido aos juros lígados ao débito, o débito é pago quatro ou cinco vezes e nunca chega a se extinguir. Há países com grandes jazidas minerais, grande potencial hídrico, enormes florestas que não podem nem explorar e nem mesmo utilizar estas reservas sem o aval dos credores.
Quando algum destes países começa a emergir e a compreender melhor o sistema econômico dos credores, quase por encanto eis que explode uma crise econômica no país, com o outro bastante longe, cujas bolsas e a taxa de câmbio se precipitam vertiginosamente. É então a ameaça do caos e, para evitá-lo, eis que surge o banqueiro miraculoso do mundo que, com uma solução salvífica, oferece novos empréstimos com novas e mais exigentes condições. Encontrando-se sem alternativa, o país pobre é obrigado a aceitar, crescendo a sua dívida externa e diminuindo, sempre mais, a sua soberania.
Em níveis ou em etapas mais complexas, a poderosa indústria bélica de alguns países ricos suscita, nos países pobres, todo um certo clima que desemboca em guerra civil, separatismo etc.; os pobres caem ingenuamente nesta armadilha e já é guerra. Milhões de dólares são gastos em armamento! Este tipo de guerra, como todas as outras guerras, produz uma assustadora destruição material e inumeráveis vidas humanas são ceifadas.
No momento seguinte, os países ricos aparecem como pombas da paz e assinam o armistício. Tudo termina aqui? Grande ilusão! Como recuperar as perdas materiais produzidas pelas poderosas armas? Eis que aparecem os homens do FMI (e os de instituições semelhantes a essa, os banqueiros do mundo) oferecendo empréstimos para a recuperação e a retomada. Populações dizimadas, familiares obrigados a separar-se e a viver com refugiados em outros países, sem ter alternativas; por isso aceitam o empréstimo e as condições propostas pelo banqueiro, pelas quais a dívida externa cresce e jamais termina.
Se examinarmos a situação das populações dos países devedores, concluiremos que essa é cada vez pior. Os problemas da saúde, da instrução, da falta de alimentação, do desemprego, da prostituição, das drogas são enormes.
Pode-se dizer que a dívida externa, assim como cada dívida contraída com agiotas, nunca será paga. Nunca jamais foi falado que um país pobres tenha pago sua dívida externa e tenha se tornado rico.
O espírito cristão não é posto em prática pelos credores. A maioria dos países mais ricos do mundo é chamada de cristãos! Por que não perdoar aqueles que já pagaram a parte principal da dívida mais de uma vez e continuam a dever muito? Não faz muito tempo, o Santo Padre, sem mencionar os credores, propôs o perdão da dívida, mas não foi escutado.
Da exortação Tertio Millennio Adveniente nº 51 consta: No espírito do livro do Levítico 25,8-12, os cristãos devem fazer-se voz de todos os pobres do mundo, propondo o Jubileu como tempo oportuno para pensar, entre outras, numa consistente redução, ou mesmo um verdadeiro perdão total da dívida internacional, que pesar sobre o destino de muitas nações.
Da Mensagem nº 4 para a 31ª Jornada Mundial da Paz, de 8 de dezembro de 1997 (O pesado fardo da dívida externa) consta: A questão da dívida faz parte de um problema mais vasto: aquele da continuação da pobreza, muitas vezes, também extrema e do emergir de novas desigualdades que acompanham o processo da globalização.
Até que ponto chegará a avareza dos países ricos? Para que possuir tanto dinheiro se o próprio irmão, o próprio vizinho padece de fome e não tem escola para seu filho? Será que um dia retornaremos ao ponto de onde partimos, quando só poucas nações tinham direito a tudo e os outros eram feitos escravos colônias dos ricos e infernos de pobres?





