DIVERSIDADE - Cultura africana longe das salas de aula
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sexta-feira, 25 de junho de 2010
Mariana Guerin<br>Reportagem Local 
Embora a Constituição de 1988 garanta proteção a todos os cultos realizados no Brasil, ainda assim as religiões afro-brasileiras são tratadas de forma pejorativa, como ''macumbas''. É o que afirma o professor de história e ciências sociais Eronildo José da Silva, mestre em Fundamentos da Educação.
Para ele, a intolerância religiosa se manifesta com ataques sistemáticos movidos por igrejas neopentescostais. ''Religiosos têm feito uso frequente de palavras com conotação pejorativa como 'encosto', 'feitiçaria', 'bruxaria', 'sessão de descarrego', 'macumbaria' etc, em total desrespeito aos princípios fundamentais da Constituição'', declara. Nesta entrevista, Eronildo Silva aborda também a lei que dispõe sobre o ensino da história e da cultura africanas nas escolas.
''Mediante um projeto pedagógico comprometido com a eliminação da discriminação racial nas escolas e com a transformação, de forma positiva, da visão do papel do negro na construção da história do Brasil, será possível ampliar a permanência da população negra nas escolas'', destaca Silva.
Há possibilidade de implantação do ensino da cultura africana nas escolas?
Desde a aprovação da lei 10.639, em 2003, há um esforço do sistema educacional brasileiro para que a legislação adquira sua verdadeira função. Na lei, nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre história e cultura afro-brasileiras. Os conteúdos devem ser ministrados em todo o currículo escolar, em especial nas áreas de literatura, educação artística e história do Brasil.
É preciso que os professores trabalhem com a individualidade das crianças, destacando suas ancestralidades e valorizando aquilo que as torna diferentes de outros grupos que compõem a população.
Mediante um projeto pedagógico comprometido com a eliminação da discriminação racial nas escolas e com a transformação, de forma positiva, da visão do papel do negro na construção da história do Brasil, alterando a lógica eurocêntrica na produção de conhecimento e cultura, será possível ampliar a permanência da população negra nas escolas.
Qual deve ser a formação do professor e a partir de qual série será ministrada?
Será ministrado em todas as séries e o conteúdo deve ser diluído em todas as disciplinas. É preciso compromisso por parte do corpo docente, pedagogos e diretores de escola, norteando suas práticas em projetos consistentes, que terão como tarefa principal desconstruir a discriminação existente no interior da escola.
O respeito pela diversidade no universo escolar deve ser garantido por todos os atores envolvidos com a educação, os quais, com criatividade, inventividade e curiosidade devem garantir materiais didáticos de boa qualidade e capazes de contribuir para que novas experiências sejam desenvolvidas na escola. Mas isto exige preparação, estudo, leituras, pesquisas.
Devem ser ofertados cursos, livros, palestras, filmes para que professores superem a atual construção histórica dos negros nos livros didáticos, pois é por meio deles que se pode desconstruir o processo de discriminação relativo ao aluno negro e à cultura dos negros africanos e afrodescendentes.
E como ficam as outras culturas de expressão na sociedade brasileira, como a italiana e a japonesa, que também vieram para o Brasil para trabalhar a terra?
Essas já são trabalhadas nos livros didáticos de diversas formas, principalmente quando se fala da substituição do trabalho escravo pelo dos imigrantes. Em função da nossa visão eurocêntrica, nos livros didáticos é explorada plenamente a cultura desses povos, enaltecendo como superiores. E a dos negros (é considerada) inferior. (O ensino) Valoriza alguns aspectos da cultura negra como capoeira, carnaval e feijoada, mas nega, por exemplo, a mitologia negra e as religiões advindas dos negros africanos.
Como se dá o ensino religioso hoje nas escolas?
São fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais. É disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, oferecida de acordo com as preferências manifestadas pelos alunos ou por seus responsáveis. Em caráter confessional, é ministrado por professores ou orientadores religiosos preparados e credenciados pelas respectivas igrejas ou entidades religiosas.
Já em caráter interconfessional, é resultante de acordo entre as diversas entidades. O ensino religioso não deve ser doutrinante de uma determinada visão religiosa, deve se dar de maneira respeitosa e reverente para com o domínio de cada culto e de cada doutrina. E deve incentivar e desencadear no aluno um processo de conhecimento e vivência de sua própria religião, mas também um interesse por outras formas de religiosidade.


