'Diversão é muito importante na sala de aula'
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sábado, 11 de abril de 2015
Antoniele Luciano<br> Reportagem Local 
Londrina Tratar a educação como prioridade. Esta é a receita canadense para que um país tenha condições de figurar entre as melhores posições do PISA, sigla em inglês do Programa de Avaliação Internacional de Alunos. Promovida pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a prova é considerada a melhor avaliação da educação no mundo e compara, a cada três anos, o desempenho de diferentes países em áreas como Leitura, Matemática e Ciências.
Para se ter uma ideia do bom rendimento canadense, em 2012, a última edição do PISA, estudantes daquele país obtiveram a 7ª posição no ranking de Leitura. O Brasil, por sua vez, ficou em 55º lugar, abaixo de países como Chile, Uruguai e Romênia.
Membro do Conselho de Educação do estado de Ontário, a professora aposentada Brenda-Leah Dizell-Jordan esteve na semana passada no País visitando escolas que adotam a metodologia de ensino canadense em terras brasileiras. Uma das instituições é a Maple Bear, sistema escolar bilíngue que atua em Londrina com crianças do berçário ao 1º ano do Ensino Fundamental.
Em entrevista à FOLHA, a consultora comentou sobre os pontos fortes do modelo de sua nação, como o investimento que o governo canadense destina em recursos anuais para o setor o equivalente a 8% de todo o Produto Interno Bruto (PIB). No Brasil, apesar da meta em alcançar 10% até 2020, ainda são investidos em educação pouco mais de 5% de todos os gastos públicos.
Brenda também discorreu sobre estratégias para favorecer o desenvolvimento dos alunos. O foco, neste quesito, deve ser a promoção de experiências com os pequenos, ensina.
O Canadá tem ótimas pontuações no exame do PISA. A que a senhora atribui este desempenho?
Acredito que o governo do Canadá coloca um foco bastante grande na educação. Destinamos 8% do nosso PIB para a educação, é uma quantidade grande de recursos. Eles investem muito em treinamento de professores. Também há vários dias em que escolas da vizinhança se reúnem para analisar resultados. Os gestores os observam e se os resultados estão piores em determinada disciplina, eles focam em melhorá-lo. O currículo é sempre atualizado e revisado para incorporar novas tecnologias. São feitas também muitas ações de aprendizagem ativa com as crianças.
A senhora poderia nos dar um exemplo do que são estas aprendizagens ativas?
As crianças fazem atividades que estimulem as mãos, com materiais concretos. Tentamos fazer um aprendizado autêntico e real. Por exemplo, se elas estão aprendendo a escrever uma carta, elas realmente vão escrever uma carta de verdade. Elas a colocarão numa caixa de correio. O professor, neste caso, realmente enviaria esta carta a alguém, talvez para o diretor de uma outra escola. Este diretor, por sua vez, responderia esta carta para as crianças.
Esta experiência no aprendizado ajuda a reter melhor os conteúdos ensinados?
Sim, ajuda. Pesquisas mostram que crianças aprendem fazendo. Isso faz com que fiquem mais interessadas. Diversão é muito importante na sala de aula.
A senhora citou os investimentos do PIB canadense em educação. Como este aspecto dos recursos pode impactar no setor?
Hoje, no Canadá, mais de 93% das crianças estão matriculadas em escolas públicas. Os pais também apreciam a comunidade escolar. As escolas do país ainda têm muitos problemas, como o bullying, mas têm estratégias para evitá-los desde o jardim de infância. Há ainda uma disciplina que ensina como ser cuidadoso com as pessoas, tratar bem as pessoas, desde o 1º ano (Ensino Fundamental).
Como podemos aproximar mais os pais da comunidade escolar?
No Canadá, nós temos conselhos de pais em todas as escolas, isso é algo que existe há cerca de 20 anos. Os pais conversam com o diretor uma vez por mês e o diretor passa para eles todas as atividades que estão sendo trabalhadas. Algumas vezes, os pais promovem eventos para arrecadar dinheiro para trazer algo diferente para a sala de aula. Eles se envolvem desta maneira também. É muito importante esta parceria e que os pais se sintam informados sobre o que acontece na escola.
O desenvolvimento integral do aluno, isto é, intelectual, emocional e físico, é um diferencial na metologia canadense? Também temos muitas diferenças em relação às turmas em sala?
O desenvolvimento holístico desenvolve a criança como um todo. Uma coisa agrega a outra. As matérias vão evoluindo, vão sendo repetidas, revisadas, têm um desenvolvimento contínuo. É tão integrado que até a parte da ética entra. As salas são grandes e temos poucos alunos por turma, em torno de 20. Os professores conseguem dar uma atenção mais individualizada. As matérias são integradas. O aluno pode aprender ciência e trabalhar uma interpretação de texto relacionada ao tema de ciências. Resolver problemas matemáticos aproveitando a ciência.
Isso pode ajudar na hora da criança passar por uma avaliação como o PISA?
O Canadá tem ido bem no PISA. É um país que tem a experiência do bilinguismo, de estar imerso em outra língua que não a materna. Talvez isso possa ajudar. Outra coisa que pode ajudar o Canadá a conseguir boas pontuações é um exame nacional aplicado em crianças do 3º, 6º e 9º ano. É um teste interno do país, que é enviado para Toronto e analisado por especialistas. Quando o resultado volta, os professores e diretor da escola observam os resultados, não para pontuar o aluno que foi mal ou bem, mas ver como podem melhorar o ensino na escola. Isso começou há cerca de 18 anos e tem ajudado a focar nas necessidades dos alunos e na melhora do professor. Se a pontuação das crianças é baixa, vemos que isso serve para a reflexão do professor melhorar sua prática.
O seu país tem um ótimo desempenho no quesito da Leitura em relação ao PISA. O que pode nos ajudar a melhorar neste item também?
Nas escolas, usamos uma estratégia chamada "Leitura Guiada", com quatro ou cinco alunos e um professor em uma área separada na sala. As outras crianças fazem uma atividade escrita, de forma independente. O pequeno grupo vai ler individualmente com o professor. Cada criança estará com um livro nivelado para o entendimento dela. Será identificado o equilibrio de cada criança. O livro não pode ser muito difícil, porque pode causar frustração, e não pode ser também muito fácil, senão não gera crescimento. Cada aluno vai lendo um pedaço para o professor. Depois, fazem uma atividade de escrita, com recorte de letras e formação de palavras. Pode-se usar uma lupa e procurar palavras chaves ou usando dedais, para apontar as palavras que estiverem lendo. Isso ajuda a estimular a criança, a chamar a atenção dela para a leitura.


