Divergentes
Na contramão do ajuste fiscal, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), autorizou o início das obras de ampliação da Casa, que vão custar R$ 400 milhões. A ampliação pretende criar novos andares de garagem subterrânea, auditório e gabinetes de parlamentares, ampliando o Anexo 4. A obra faz parte de um conjunto de reforma e construção da Câmara que ganhou o apelido de "Parlashopping", pois previa a abertura de lojas e um restaurante.
Como a Câmara não conseguiu alavancar uma parceria com empresas privadas, o "centro de lazer" ficou para uma próxima vez. Não apareceram empresas interessadas em tocar a obra e explorar o aluguel dos espaços comerciais. Se decidisse levar à frente todo o projeto, ele custaria perto de R$ 1 bilhão. Preço bem superior ao que pretendem gastar os empreendedores do Jockey Plaza, anunciado como o maior shopping de Curitiba e que custará R$ 650 milhões.
O primeiro-secretário da Câmara, Beto Mansur (PRB-SP), não disfarçou a decepção com a redução no tamanho da obra dizendo que a situação está difícil e o mar não está para peixe. É agora que o cidadão comum pode ironizar: se está difícil para os deputados federais, imagina para quem ganha um salário? Infelizmente, a maioria dos políticos não se importaria com a ironia. Quando foi questionado sobre a decisão de gastar R$ 400 milhões na reforma, Cunha argumentou que trata-se de recursos próprios da Casa. Que não deixa de ser dinheiro público.
Não é ilegal usar os milhões de reais guardados na conta da Câmara para uma melhoria no espaço. Mas no momento em que o Brasil atravessa tão grave crise econômica e política, esse gasto demonstra falta de sintonia com a realidade do País. Escolas estão sendo fechadas, universidades públicas têm seus orçamentos reduzidos drasticamente. A crise não poupa programas sociais e, para complicar, a diminuição da renda do trabalhador é angustiante. Ontem, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a taxa de desemprego, que voltou a subir no semestre encerrado em agosto e chegou a 8,7%. É a maior taxa de desocupação da série histórica iniciada em 2012. Se está sobrando dinheiro público nos cofres da Câmara, que pelo menos ele seja aplicado com responsabilidade.





