Com os embates que se sucederam à ideia de comemorar os 55 anos da tomada do poder no Brasil pelos militares, nunca se falou tanto sobre a ditadura. Entre prós e contras, as novas gerações tiveram acesso, pela primeira vez, a informações discutidas na imprensa e nas redes sociais enfatizando os anos de chumbo, o número de mortos e desaparecidos, as ações da esquerda e da direita no País naquele período que durou longos anos, de 1964 a 1985, quando então veio a chamada “abertura”.



São informações que os contemporâneos daquelas ações que envolveram o exército e militantes talvez tivessem esquecido em seus detalhes, embora os fatos sejam latentes na memória de quem viveu o período, tendo até mesmo presenciado prisões e mortes que pertencem a um tempo sombrio.


A Comissão Nacional da Verdade, instaurada em 2011 para fazer um balanço das perdas sob a ditadura militar, aponta mais de 400 mortos pelas forças da repressão, enquanto os que apoiaram o regime falam em mais de 200 mortos pelas ações das guerrilhas e da militância de esquerda. Esses números ainda estão sendo apurados, tendo em vista que muitas investigações prosseguem porque há um contingente de desaparecidos a ser contabilizado por parentes e amigos que, simplesmente, os perderam de vista.


Depoimentos emocionados, como o do escritor Marcelo Rubens Paiva, que teve o pai assassinado pelo regime, o então deputado Rubens Paiva - além da mãe e da irmã terem sofrido torturas e sevícias - dão conta de um tempo que ninguém quer reviver. O paradoxo é que a ideia de se comemorar a instauração de um regime de força trouxe à baila até mesmo o que muitos não sabiam. Para muitos jovens essas informações tiveram o impacto de uma revelação.


O lançamento do livro do jornalista Eduardo Reina “Cativeiro Sem Fim”, no último dia 2 de abril, reuniu famílias das vítimas em São Paulo. Essas famílias só em 2018 tiveram um primeiro encontro nacional, décadas após as ocorrências de triste memória. Depois do lançamento do livro, o autor já foi procurado pelas famílias de mais dezenove pessoas que podem ter sido sequestradas no período.


Na contrapartida, simpatizantes da direita elencam números de vítimas das ditaduras comunistas para demonstrar que nem só uma ideologia mata. Porém, fica evidente que o que se deseja numa democracia não é demonstrar quem mata mais, mas que se aprenda o respeito a pensamentos diferentes sem os excessos de tornar a política um motivo de perseguição, explosões, torturas e assassinatos.


Mais do que olhar para exemplos decadentes da direita ou da esquerda, os democratas desejam o fim da violência por motivação política no lugar da exibição de um ranking que só se justifica para se fazer justiça e amparar famílias das vítimas, não para se ostentar como troféu de uma triste equiparação. Também é insensato classificar qualquer ditadura como “branda”, para quem perde entes queridos o peso da morte sempre terá a extensão máxima da dor. É só se por no lugar de quem perdeu pais, maridos ou filhos.


O que se viu nos últimos dias, ao se remexer na memória da ditadura, foi a contabilização de fatos dos quais uma parcela das novas gerações sequer tinha conhecimento e os mais velhos lembravam como uma página que não desejam reviver, a não ser para lamentar que um dia a opção ideológica custou vidas, fato que, sem dúvida, se contrapõe a qualquer ideia de democracia.


A tortura e a morte nunca foram estandartes de respeito de nenhum governo às vidas humanas. Os órfãos das ditaduras – de qualquer facção - só têm sempre a lamentar porque não há nada a se comemorar quando a memória é a dor e o luto.


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