Ditadura e democracia (Luiz Geraldo Mazza)
Luiz Geraldo MazzaDitadura e democracia
A intervenção do Diretório Nacional do PT na regional do Rio de Janeiro, que havia adotado a candidatura Vladmir Palmeira e com isso ameaçado a aliança com o PDT, tem o impacto de uma carga da cavalaria americana para decidir conflito entre índios e colonos, num faroeste clássico. E o presidente do PT, ex-deputado José Dirceu, que ganhou as eleições internas do Milton Temer por uma diferença mínima, o que tem origem nada remota com a bronca recente, essa do Rio de Janeiro, chegou a afirmar que democracia tem hora, um ato falho bem parecido com os de Fernando Henrique relativamente aos aposentados. Democracia de circunstância é uma velha deformação da esquerda brasileira e não espanta esse tipo de argumento até porque nem toda ela cumpriu suas penitências diante da exaltação anterior do socialismo real, Estado essencialmente policial. Vermelho, porém fascista, traindo a mística de origem.
Mas o PT do Rio vai à Justiça, que é a instância apropriada para dirimir uma questão que os dirigentes preferem que se metabolize no partido, como se dá com os cartolas do futebol, os da CBF e da Fifa, que punem os que vão buscar seus direitos no Judiciário. E a oposição interna deve fazê-lo mesmo para que se conheça a verdadeira natureza do nosso melhor partido que com essas fica, a cada momento, bem mais parecido com seus competidores, tidos como burgueses e reacionários, fazendo a democracia de discurso e a ditadura de prática.
AXIOMA Para se ter uma idéia do grau de desagregação da polícia, negado pelos burocratas e políticos, registre-se que à frente do Instituto de Identificação do Paraná, na rua José Loureiro de Curitiba, ontem pela manhã, havia uma faixa acusando um determinado delegado de ser ligado ao narcotráfico. Acredita-se que a perfídia tenha sido de policiais. A briga de babuínos se alastra. Falta comando lá no Palácio Iguaçu, já que se delega a área para o prédio à esquerda.AFORÍSTICO
Aníbal Khury distribuiu Viagra entre amigos. Nem assim houve quorum.
GLOSA Gente do governo não está envolvida apenas no caso da Banestado Leasing e da Corretora, com as desastrosas compras de títulos estaduais, mas também em coisas cabeludas como o estouro de empresas, Malas Ika por exemplo, cujo mico ficou para o Banestado. Claro que a esmagadora maioria dos casos é de governos anteriores, sem dúvida, mas o atual não está absolvido.
BIZARRICESe a credibilidade do governo crescesse na mesma proporção do rombo no Banestado - era um bilhão e pouco, passou para dois bi e tanto e agora já ultrapassou os três bi - ganhava a eleição até antes do primeiro turno, pois os mais ajuizados, por mais vingativos que fossem, desistiriam. Raciocínio do José Carlos Mendes, que lê nas entrelinhas e nos entre-números.
SPRAY Demonstrações exageradas da polícia ontem e anteontem dividiram o povo: uma parte acha válido porque ilusoriamente se crê protegida, outra discorda dos excessos de encenação com prisão de pessoas sem documento.- Enquanto há helicóptero para esse exibicionismo, ele faltou na hora de perseguir a gangue que atacou o posto bancário da Prefeitura de Curitiba.- A circunstância de políticos estarem dominando a Segurança, com o governador aparecendo como coadjuvante, é o fato central. A cada vez que se fala nisso, o silêncio é geral. É que todos temem o verdadeiro dono da área e que não admite discussões.- Academia do Guatupê, duas semanas atrás, ficou um dia com os telefones mudos. Causa: haviam roubado, na parte externa, quase junto à BR-277, a rede telefônica. Dá a impressão de coisa bolada, planejada, e não apenas de patetice e ausência de zêlo profissional.- Falar em off, às vezes, dá desastre: o secretário Rubens Tanure, da Segurança, contou (e o pessoal daqui respeitou o sigilo como manda a ética) nesta Folha que havia, de fato, o croquis da Prefeitura de Curitiba entre os planos de uma quadrilha que foi presa. Esse informe, repetido em outros jornais, deu margem ao estrilo do prefeito Cássio Taniguchi porque circulou também entre policiais que permitiram o vazamento da notícia.- Volantes da revista Paraná em Páginas mostrando as ligações do governo com o Onaireves Rolim de Moura eram distribuídos fartamente no centro de Curitiba. Um árbitro de futebol segredou na Boca Maldita (imaginem sigilo naquele ponto de fofocas e espionagens) que Moura está devendo R$ 22 mil para os apitadores, hoje super-bronqueados com a convocação de gente de fora na hora do bem bom dos clássicos finais.- Outra do Moura: o cidadão que lhe vendeu sete quilos de ouro para a festa no Clube Curitibano, em que recepcionaram a dupla Havelange-Ricardo Teixeira, está sem receber, e pressionado pelos que lhe forneceram o metal.- O abandono do Passeio Público é inaceitável: sujeira, mau cheiro, uma vergonha. Ideal seria a retirada de todos os animais de lá, já que existe o Jardim Zoológico melhor equipado. Teme-se, também, pelo tipo de restaurante que se pretende colocar em lugar do Pasqualle e que seja algo da linha dos bufês populares tão em moda.- Outra fonte de miasmas intolerável é o Parque Barigui. As obras de dragagem parecem apenas agravar a questão, pois é contínuo o processo de assoreamento que não se dá apenas ali.- Associação dos Assaltados e Roubados do Paraná percebeu que 70% das vítimas tiveram como algozes delinquentes menores, razão pela qual pretendem fazer um abaixo assinado de 100 mil para pleitear a redução da imputabilidade penal aos 14 anos. Por que não pega a turma da chupeta e da mamadeira? - é o que perguntam os mais paranóicos.
FILOSOFIADeus deve amar os pobres, disse Lincoln, ou não teria feito tantos deles. Deve amar também os ricos, ou não teria dividido tanta mazuma por tão poucos entre eles. Claro como água: a reflexão é de Henry Louis Mencken.
FOLCLORE A polícia do Paraná adquiriu o modelo Corsa. Com isso absolveu os gordos. Se lembrasse, como modelo e hipótese de trabalho, alguns dos nossos políticos de maior destaque, os tornaria livres pelo menos de veículo tão acanhado. A lembrança é do Rubinho Ferreira: dois com o seu corpo também não caberiam, pelo menos com folga.
CROMO Troco a fêmea baleada// por nova de pouco gasto// que venha só embalada// de laço-fita encapada.// Suficiente pro meu pasto.// A baleadeira essa me troca// por homem de fino trato// que a tome em sua boca// implemento do seu prato.// Trecho do poema Disfunção, do Walmor Marcelino.





