DISTÚRBIOS DE FALA - Gagueira tem origem neurológica
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Érika Gonçalves<BR>Reportagem Local 
O que Moisés, Marilyn Monroe e o cantor Nelson Gonçalves têm em comum? Todos eram gagos. Até algum tempo, acreditava-se que a gagueira era um problema psicológico. Isso porque o gago, em situação de pressão, tende a apresentar o problema de forma mais acentuada. No Brasil, calcula-se que 5% da população, ou cerca de 9,5 milhões de pessoas apresentem esse distúrbio.
Mas como um cantor como Nelson Gonçalves pode ter sido gago? É verdadeiro o senso comum de que uma pessoa com gagueira, durante o canto, não apresenta o problema?
''Quando a pessoa canta, os processos neurológicos que estão sendo usados, são um pouco diferentes. Se ela está cantando ou imitando a voz de alguém, é um processo diferente da fala espontânea'', explica a fonoaudióloga Maria do Carmo Branco, de São Paulo.
Aproveitando esse funcionamento diferente do cérebro durante o canto, foi desenvolvido nos Estados Unidos um aparelho que simula este efeito, fazendo com que a pessoa gaga passe a falar com fluência. Maria do Carmo explica como ele funciona.
O que é a gagueira e qual sua origem?
É um transtorno de fluência da fala. Existem diversas explicações para a origem da gagueira, uma fortemente aceita é que a gagueira é uma dificuldade que o cérebro tem para finalizar quando termina o som de uma sílaba e passar para o próximo. Com essa dificuldade a pessoa fica presa em uma sílaba e isso gera o que a gente escuta como bloqueio ou prolongamento de uma sílaba.
Traumas podem desencadear gagueira?
A pessoa tem essa dificuldade neurológica. Algo que envolve o núcleo da base, que é uma estrutura no cérebro responsável por atividades automáticas, provoca uma dificuldade da automação da fala.
A pessoa que tem a gagueira manifesta isso na infância?
É muito comum a gagueira surgir no processo de aquisição de linguagem da criança. Grande parte dessas crianças acabam depois se tornando fluentes, ou seja, aquela gagueira era um processo comum, normal da aprendizagem de fala. Existem crianças que passam por esse período de desenvolvimento, a gagueira aparece e se instala, ou seja, ela permanece ao longo da vida e aí sim é uma gagueira que consideramos que tenha essa origem neurológica.
Quem os pais devem procurar quando detectam esse problema?
Geralmente indicamos que a pessoa procure um fonoaudiólogo, que é o profissional responsável pelo tratamento dos distúrbios de fala. Mesmo que os pais tenham alguma dúvida se aquela gagueira vai se instalar ou não, a gente aconselha que procurem um profissional especializado para fazer uma avaliação.
É verdade que a pessoa que tem a gagueira quando fica nervosa acentua o problema?
Sim. É normal quando a pessoa passa por uma situação em que está mais exposta ter momentos de gagueira maior. Isso acontece mesmo com as pessoas que são fluentes. Para quem tem gagueira, as situações são mais difíceis. Uma palestra, uma reunião, uma entrevista de trabalho ou uma paquera são situações onde o indivíduo está mais exposto e portanto vai ter uma dificuldade maior de comunicação, vai acentuar o momento de gagueira.
E qual o tratamento?
O tratamento fonoaudiológico vai abordar exercícios que façam com que o paciente desenvolva estratégias de fala. E um outro tipo de tratamento, complementar a esse, envolve tecnologia digital. É o caso de um aparelho colocado na orelha do paciente que permite que ele escute a própria voz alterada. Quando isso acontece o córtex entende aquilo como sendo uma situação de fala em coro e isso promove momentos de fluência.
Esse aparelho promove a cura?
Não, assim como outros tratamentos fonoaudiológicos. O paciente no momento que estiver com o aparelho vai ter maior fluência, eliminação ou suavização da gagueira. A diferença do aparelho para os exercícios de fonoaudiologia é que todas as estratégias e exercícios desenvolvidos para que o gago fale melhor são conscientes, a pessoa tem que estar prestando atenção na própria fala. E com o aparelho pode ficar mais tranquila, o tratamento é um pouco mais passivo e isso vem de encontro à questão que nós falamos anteriormente sobre ficar nervoso ou ansioso diante de alguma situação. Prestar atenção na forma que fala, provocar modificações para ficar fluente e além de tudo lidar com a questão emocional do momento torna tudo mais difícil ainda. O aparelho facilita isso.
A pessoa não fica confusa em ouvir a própria voz com atraso?
Esse atraso e a mudança da frequência da fala são regulados no computador. Durante a fase de adaptação é determinada a melhor regulagem para que o paciente consiga ter o benefício da fala em coro e ao mesmo tempo que seja agradável.
A partir de que idade o aparelho pode ser usado?
Pessoas a partir de 10, 12 anos são candidatas ao uso do aparelho. Para crianças abaixo dessa idade recomendamos que o tratamento fonoaudiológico seja feito até que ela obtenha melhores resultados.
E depois a pessoa deve continuar com o tratamento e o aparelho juntos ou só o aparelho é suficiente?
A gente percebe que os pacientes que usam o aparelho e fazem tratamento fonoaudiológico têm um desempenho melhor, por isso sempre consideramos que os dois tratamentos sejam feitos ao mesmo tempo. Inclusive a fonoaudióloga responsável pelo atendimento deve conhecer o aparelho e saber fazer a regulagem (do aparelho).


