DISTRIBUIÇÃO DE SAÚDE - 70 cidades paranaenses não têm médicos
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sábado, 02 de março de 2013
Danilo Marconi<br>Reportagem Local 
Seis em cada dez médicos paranaenses vivem nas três maiores cidades do Estado. Curitiba, Londrina e Maringá concentram 12,8 mil profissionais, de acordo com dados do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR). Por outro lado, em 70 municípios não moram médicos.
A distribuição irregular de médicos pelo Estado não é exclusividade do Paraná. O estudo "Demografia Médica volume 2", publicado recentemente pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), indica que o Paraná é o quinto em número absoluto de médicos e o oitavo em proporção, com 1,87 médico por habitante. Para efeito de comparação, o Rio Grande do Sul tem 2,37 médicos a cada 1 mil habitantes e Santa Catarina, 1,98. O índice nacional é de 2.
"A grande questão não é discutir número, mas a distribuição desses médicos. O Estado tem 1,87 médico a cada 1 mil habitantes, Curitiba tem média de 5,71", alerta o presidente do CRM-PR, Alexandre Bley. O ideal, de acordo com o Ministério da Saúde, são 2,5 médicos por habitante.
Outros números divulgados pelas entidades médicas chamam a atenção. Quarenta e seis por cento dos médicos brasileiros não são especialistas. São 388 mil profissionais generalistas. A situação no Paraná é melhor. Dos 19,8 mil médicos do Estado, apenas 26,4% (7,1 mil) não são especialistas.
E não é por falta de opção que alguns médicos não buscam fazer residência. Treze instituições de ensino oferecem cursos de medicina no Estado são 1.037 vagas por ano e 42 oferecem residência.
Por trás desses números, de acordo Alexandre Bley, está a falta de comprometimento das diferentes esperas de governo na busca por soluções para a saúde pública. "As pessoas eleitas não se comprometem com aquilo que é básico. A saúde é analisada do ponto de vista do viés econômico e não se discute a real necessidade da população", critica.
A distribuição irregular dos médicos pelo País é um dado que surpreende?
O primeiro volume do estudo "Demografia Médica" já demonstrava os números gerais e a distribuição dos médicos no País. O segundo volume traz um dado mais refinado, de especialistas, e demonstra uma grande diferença na distribuição de profissionais especialistas e generalistas. O Paraná estaria um pouco abaixo da média nacional, mas na nossa ótica não é motivo de alarde. Esse critério adotado pelo governo de 2,5 médicos para cada mil habitantes não tem embasamento técnico. O índice nacional estabelece 2 médicos para cada mil habitantes e o Estado está um pouco abaixo. Temos mais de mil vagas de graduação, que é um número suficiente. Verificamos aqui no Paraná que tem muito mais entradas de profissionais no mercado de trabalho do que baixas.
A grande questão não é analisar o número de profissionais, mas a distribuição. Onde esses profissionais estão trabalhando, onde eles estão residindo? A média do Estado é de 1,87 médico, na capital esse número salta para 5,71. Temos muitos médicos em grandes cidades e poucos nas pequenas.
E as pequenas cidades concentram os generalistas?
Isso. O que a gente verifica é que em torno de 70 cidades não têm médicos que moram nesses locais. Isso não quer dizer que não tem médico, mas muitos trabalham na cidade, mas não moram no local. Claro que existem locais de desassistência. O que temos que discutir, tanto em relação ao médico generalista quando ao especialista, é o processo de distribuição.
O que está por trás disso?
Falta de estímulo, salários baixos, condições de trabalho inadequadas, falta de aparelhagem para desenvolver um bom atendimento, ausência de hierarquização.
E quais as consequências? Dá para mensurar o prejuízo que a falta de um profissional da área traz para a população?
Obviamente que o acesso à saúde, à promoção de saúde, passa pela avaliação desse profissional. Então se em um determinado local onde não tem a quantidade de médico suficiente para a demanda, consequentemente você vai ter um processo de desassistência e o acesso da população será deficitário. Isso pode resultar em uma situação de agravo da saúde das pessoas.
O governo está atento a isso?
O governo fala em aumentar o número de escolas e, consequentemente, em aumentar o número de médicos. Se mantivermos as vagas que oferecemos hoje (no Paraná são 13 instituições de ensino superior - 1.037 vagas por ano) daqui a nove anos chegaremos nesse índice médico/habitante que o governo quer.
O que falta então é uma política pública mais incisiva?
Saúde é um direito do cidadão e dever do Estado. Isto é constitucional. O Estado tem que ter um programa definitivo de recursos humanos, desde o atendimento básico até o de alta complexidade. Se não há, não vai atingir uma meta de atendimento. O Estado tem que entender essa questão de uma vez por todas e iniciar um processo de discussão com as classes envolvidas.
Esse diálogo não existe?
Conversas existem, mas falta comprometimento. É isso o que está faltando nos nossos governos de uma forma geral. As pessoas eleitas não se comprometem com aquilo que é básico. Existe um comprometimento relativo, a saúde é analisada do ponto de vista do viés econômico e não se discute a real necessidade da população. Enquanto a saúde pública for analisada desta forma vai haver problemas crônicos no sistema como a falta de profissionais, filas, falta de medicamentos.
Adianta ter médico sem especialização?
Não justifica abrir mais escolas, não devemos fazer isso por critério político. A preocupação do Conselho Regional de Medicina não é quanto a abertura das escolas, mas em relação a abertura indiscriminada, sem critérios. Defendemos que façam uma limpa nessas escolas e analisem quem tem suficiência para se estabelecer. Temos que fechar as escolas que não têm capacidade para formar bons profissionais e estimular a abertura de novas escolas, com condições. No Paraná, por exemplo, algumas escolas têm processos de revisões e análises dentro do Ministério da Educação.
O estudo "Demografia Médica" aponta ainda uma concentração do número de especialistas. São 53 especialidades no País, mas pediatria e ginecologia e obstetrícia concentram 37% dos profissionais. Por outro lado, genética, cirurgia de mão e radioterapia têm apenas 2,21% dos profissionais. Qual é a realidade do Paraná quanto a distribuição dos especialistas?
O que a gente vê, não só na saúde pública como na saúde suplementar, é dificuldade de (encontrar) profissionais nas áreas de endocrinologia e reumatologia. Isso não quer dizer que não há profissionais dessas especialidades, mas que eles chegaram a um ponto de desestímulo que deixaram de atender.


