O Brasil da segunda década do século XXI, mais precisamente da desventura fascista que o golpe de 2016 (ungido, orquestrado e realizado sob o manto ficcional de ‘pedaladas fiscais’) propiciou, definitivamente não é para amadores.

Enquanto você, meu outro leitor, faz a leitura deste texto, há um deputado federal, licenciado da Câmara, residindo nos Estados Unidos.

Segundo o próprio parlamentar, sua missão é comandar (ou arregimentar, não captei bem a mensagem do luminar) a resistência ao julgamento criminal que está sendo submetido o seu pai, o ex-presidente messiânico, pelo Supremo Tribunal Federal...

Segundo a tese do parlamentar em solo alienígena, há uma perseguição em curso, urdida no Supremo, contra seu pai e uma tantada de expoentes menores da extrema direita tupiniquim.

Assim é que, à distância, um parlamentar ausente, vem tramando (em solo norte-americano) contra nossa soberania, naquilo que sua tese busca hipóteses de arregimentação e sanções, contra a plenitude funcional de nossa maior instituição judicante – o Supremo.

A violência de conjurar críticas e propiciar lugar de fala a uma nação alienígena à desfavor da cátedra maior do institucionalismo judiciário brasileiro, me traz a memória, desafortunadamente, a imagem aleatória tirada em uma capital do Norte do país, mais precisamente de um colante afixado em um veículo, onde o condutor propagandeava sua adesão à campanha eleitoral de Donald Trump.

Nesta mesma senda, recordo de um outro veículo circulando com um adesivo da maga (make américa grat again), em São Paulo, se não me engano...

Nada contra o sujeito se expressar a favor de a, ou contra b, naquilo que a reivindicação dos próprios postulados de alinhamento é uma das características da democracia – e eu sou, sem qualquer menoscabo, um democrata...

O que pega, aqui, é o ideário vira-lata que caracteriza a opção do parlamentar em conspirar contra nosso sistema de justiça junto a tio san, obtemperando uma qualquer elementar, distinta à equação de auto determinação dos povos, na sugestão e pela busca por uma qualquer medida intervencionista alienígena (in casu estadunidense).

Que há um jogo sendo jogado e que suas regras, via de regra, são respeitadas por apenas um dos lados (no caso o campo das esquerdas), disso não tenho dúvida ou incerteza. Mas que a hipocrisia chegaria a altura que chegou, onde os disparos de fake news seguem abastecendo a atuação do parlamentar conspirador em solo norte-americano, isso não acreditava viver.

Vamos olhar profundamente para nossas consciências e, do platô de onde fomos educados, lembrar daquilo que nos ensinaram os nossos avós, em tempo e altura de indagar: porque há gente que apoia golpista e lambe bota (de milico e de pilgrin)?

Por que o mundo é estranho, amiga. Muito estranho...

Veja você (minha ilusão) que identificamos no Brasil um fenômeno redivivo que remete (desde sempre) aquilo que o filósofo contemporâneo Tim Maia apelidou de pobre de direita.

O que seria esse pobre de direita, bebê? Pobre de direita é (via de regra) aquele sujeito de pouco conhecimento histórico, que não é dado a leitura de nenhuma natureza.

Preconceituoso, o pobre de direita está (quase sempre) ligado a uma igreja que fundamentaliza a palavra e, por isso mesmo, estabelece ondas de preconceito, de machismo, misoginia, homofobia e racismo (que tenta aliviar).

Demais disso, o pobre de direita é negacionista – porque se ele pensasse, lê-se, acreditasse na ciência, valorizasse sua companheira e não uma sua qualquer companhia, não seria útil ao manejo bovino com o qual as questões políticas estão a lhe tanger desde sempre.

Penso, todavia, que o pobre de direita não sobreviveria em Pasárgada, naquilo que, para o desafortunado, não bastaria ser amigo do rei. Tampouco se deitar com a mulher que escolher, suposto que lhe faria uma falta danada um pastor para chamar de seu...

Na aurora dos tempos, todavia, quando a noite era jovem e o homem contratou o convívio em sociedade, o pobre de direita não sabia o que significava estado de bem-estar social, muito menos regulação de mercado. Mais valia, então, seria (no máximo) um nome exótico a se considerar em caso de nascimento de uma outra filha.

Neste espírito, os pastores de igrejas fundamentalistas não lhe pediriam mais e mais dinheiro para realizar a obra do Senhor, que o Pai não seria uma construtora ou uma incorporadora – o Pai era Pai e ponto final.

Nada obstante as dificuldades cognitivas que abraçam nossos dias de má poesia e de tristeza à contento, não percamos de vista que o discurso cerca Lorenço que captura a vontade do gado em favor do livre mercado, tem base ideológica enfraquecida na exclusão dos menos favorecidos, pelo engodo dos que vendem sonho na conta do chá.

Por isso mesmo não faça mais pix para o seu político de direita, que ele quer, em verdade, é usar seu dinheiro para fazer como fez a Zambelli – fugir da justiça!

Tristes e explorados trópicos.

Saudade Pai!

João Gomes Filho, advogado

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