DISPUTA ELEITORAL - Momento é de estabilidade econômica e política
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
2010. Ano eleitoral no Brasil. É momento de escolher o novo presidente, além de governadores, senadores, deputados estaduais e federais. Nesta eleição presidencial, há um fato que chama a atenção: é a primeira vez, desde a redemocratização, em 1985, que o cenário é de estabilidade política e econômica.
Para Antônio Márcio Buaiain, doutor em economia e professor do Instituto de Economia da Unicamp, o ambiente estável favorece o governo que, segundo ele, tem seus méritos. ''Um deles é não ter aplicado o programa econômico que o PT sempre defendeu'', diz Buaiain que, nesta entrevista, faz uma avaliação do momento e aponta as tendências do setor econômico e político no Brasil.
Como o senhor avalia o atual cenário econômico do Brasil?
O cenário é positivo. No segundo semestre de 2008, com a eclosão da crise financeira internacional, a sociedade brasileira sofreu o impacto negativo da forte freada repentina do nível da atividade econômica.
Em 2009 vivenciamos três momentos distintos: o primeiro foi de propagação da crise, com retração em todos os indicadores. No segundo, de acomodação, esvaiu-se o clima de pânico. No terceiro momento, o pessimismo é revertido e se transforma em otimismo, o mercado interno se aquece, comércio e produção se expandem, investimentos voltam a ser anunciados. Embora a economia não tenha crescido, 2009 fecha em um clima de quase euforia. Claro que os resultados são muito desiguais.
O País já se recuperou da crise econômica mundial?
Estamos em fase de recuperação. Não dá para falar que já se recuperou quando a economia fechou 2009 com crescimento zero, enquanto a China cresceu 8% e a Índia perto disto. Foi a recessão mais profunda já registrada pela economia brasileira, mas felizmente a mais rápida. O pior já passou e as perspectivas são positivas.
E o que colaborou para a boa recuperação?
Vários fatores. No plano internacional, os discursos e as ações coordenadas das principais lideranças mundiais deram garantias de que os governos estavam dispostos a fazer tudo que estivesse ao alcance para evitar o pior. No plano doméstico as ações do governo também foram decisivas. O grande diferencial foi o crédito, que cresceu muito no período posterior à crise. O estopim da crise internacional foi o efeito dominó causado pela inadimplência no setor imobiliário americano. Quando estoura a crise a reação dos bancos e financeiras é reduzir o crédito. Aqui no Brasil, devido à intervenção positiva do governo, aconteceu o contrário. A redução dos impostos e a valorização do Real também contribuíram. Ambos reduziram os preços e as pressões inflacionárias, estimulando a demanda doméstica.
Qual a tendência da economia em 2010? Qual a projeção de crescimento do PIB e como o senhor analisa o desempenho do PIB do ano passado?
Em 2009 o PIB não cresceu e deve ficar próximo de zero. A forte aceleração do último trimestre não terá força para modificar esta situação. As perspectivas para 2010 são muito positivas, principalmente porque os empresários estão retomando os projetos de investimentos. Espera-se um crescimento entre 5% e 6% do PIB. As condições gerais da economia brasileira também são boas, ainda que em 2009 tenhamos observado a deterioração de vários indicadores importantes. Mas ainda temos folga e os efeitos deverão se manifestar apenas em 2011. Neste ano o governo fará o possível para evitar situações de crise. O orçamento do Governo Federal para 2010 mostra que a preocupação é com a eleição. A inflação deve continuar sob controle.
E o contexto político?
O cenário político é bem mais complicado. De um lado, os partidos, que são atores centrais do processo democrático, não conseguem expressar a pluralidade da sociedade; os da base do governo não têm qualquer identidade própria, e vivem do tradicional jogo da barganha baixa, da troca de favores, ocupação de cargos. Os da oposição não conseguiram desempenhar o papel de oposição efetiva. A enorme popularidade do presidente inibiu a oposição. Ninguém pode criticar Lula e sua administração. Isto apequenou o debate. Criou-se um clima parecido com os anos duros da ditadura militar. Ficou tudo muito polarizado. O governo sempre se colocando como do lado dos pobres e excluídos e a oposição, sempre que se manifesta, é colocada como defensora das tais elites. O debate eleitoral fica reduzido a nomes, e não a projetos. Além disso, observa-se um desgaste da própria política: o Congresso nesta situação vergonhosa, alguns políticos roubando impunemente. A maioria da sociedade acaba se afastando da política, que aos poucos vai ficando nas mãos dos que não estão bem preparados.
Pela primeira vez desde a redemocratização, o País está em um momento de estabilidade política e econômica em um ano de eleição presidencial. Qual é a sua avaliação sobre esse cenário?
De fato as eleições anteriores foram realizadas em um ambiente de crise econômica e/ou política. Isto favorece o governo, que tem méritos. Um deles, talvez o principal, tenha sido não ter aplicado o programa econômico que o PT sempre defendeu. Na prática o governo Lula deu continuidade, aprimorando e aprofundando a política econômica desenhada na administração FHC. Houve uma apropriação até desonesta das conquistas que a sociedade tinha alcançado antes da vitória eleitoral do Lula.
O cenário econômico pode interferir nas eleições?
É evidente que sim, uma vez que a candidatura do governo tentará capitalizar os resultados como se tudo fosse obra do Lula. De qualquer maneira, tanto o candidato do PSBD, Governador José Serra, como do Partido Verde, a ex-Ministra Marina Silva, têm condições de elevar o nível do debate e desmontar o discurso governista.
Qual é o grau de influência das crises políticas e econômicas na decisão do eleitor?
Pode ser grande, mas depende das estratégias dos candidatos. Na reeleição do presidente Fernando Henrique, o medo do agravamento da crise certamente afetou a decisão de muitos eleitores, até porque o discurso que o PT fazia só aprofundava o medo. O eleitor hoje parece mais um joguete nas mãos dos habilidosos marqueteiros políticos, o que torna sempre mais difícil antecipar os resultados eleitorais.


