Disparada do dólar, por que tanta surpresa?
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sexta-feira, 02 de agosto de 2002
Salézio Dagostim 
Tudo o que está acontecendo com a economia brasileira estava previsto. O que mais nos causa admiração é a surpresa que as autoridades monetárias alegam estar vivendo com relação ao que está se passando.
O desconhecimento de noções de contabilidade por parte dessas autoridades monetárias é algo que merece registro. A primeira regra que deveriam saber é que toda a origem que representa entrada de recursos tem que ser devolvida. A segunda, é que todas as origens têm que estar catalogadas no fluxo de caixa para que seja possível saber quanto e quando deve ser devolvido. Uma terceira regra contábil determina que, não havendo condições de devolução de acordo com a previsão, é necessário buscar uma fonte de recursos para suprir tal carência. Tudo isso deve ser feito, naturalmente, de maneira antecipada, para evitar a especulação.
Um exemplo: se uma empresa precisa pagar em uma determinada data 50 sacas de arroz e sabe que terá, na data do pagamento, somente 30 sacas, deverá buscar um fornecedor que lhe empreste as 20 sacas restantes para manter o seu equilíbrio e cumprir com o compromisso. É necessário, evidentemente, que as 20 sacas emprestadas sejam alocadas no fluxo para ser devolvidas no prazo estabelecido, acrescidas, ainda, dos juros correspondentes. Tudo funcionará com harmonia, sem surpresas. Antes do vencimento dos compromissos há previsão de pagamento e o mercado funcionará sem traumas. Caso contrário, se as 20 sacas forem compradas na véspera da liquidação da dívida - e é isso que está acontecendo com os dólares no Brasil -, certamente aqueles que detêm o produto farão especulação e cobrarão um valor acima do preço justo. O produto será leiloado, o que provocará uma uma sobrevalorização.
A falta de controle, tanto nesse pequeno exemplo como na administração de um país, é sinônimo de falta de responsabilidade. No Brasil, atualmente, para que o Executivo possa fazer qualquer coisa, é preciso buscar recursos externos. Não há qualquer preocupação quanto ao planejamento da devolução de tais recursos, se haverá retorno do capital para possibilitar a quitação da dívida. O importante é a execução inconsequente dos projetos. O futuro não importa. Basta abrir o Diário Oficial da União, do dia 25 de julho passado, Programa de Ação nos Cortiços do Estado de São Paulo, US$ 34 milhões; 3 de julho: Programa Paraná Urbano II, US$ 100 milhões; na mesma data, Empréstimo de Ajuste do Setor Elétrico, US$ 454,55 milhões de dólares; 1º de julho, US$ 22,5 milhões para combate à pobreza rural de um único estado. Esta é apenas uma pequena amostra. São empréstimos e mais empréstimos, de toda ordem, para todos os Estados. Até para duplicar a BR-101, US$ 1,1 bilhão.
Está mais do que na hora do Congresso Nacional cumprir com suas funções e nossas autoridades monetárias mostrarem mais responsabilidade para com o País. Afinal, o que será de todos nós no futuro próximo? Ou será que não precisamos nos preocupar, pois tudo será perdoado? E continuaremos com ar de surpresos, como se a especulação fosse algo totalmente natural e necessário. Afinal de contas, o Brasil somos nós, e até nós ainda temos o direito de nos defendermos.
SALÉZIO DAGOSTIM é contador, presidente da Confederação Nacional dos Contadores e professor do Centro Universitário La Salle em Porto Alegre (RS)
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