Disneyworld em Havana - Hélio Doyle
Hélio Doyle
Não é lícito explorar ninguém, muito menos uma criança ou um adolescente. Qualquer tipo de exploração, nesse caso, é injustificável, sob qualquer prisma. Seja econômica, humana, afetiva ou política. Nunca há uma boa razão para explorar uma criança.
Alguns exemplos de exploração de crianças e adolescentes são mais correntes: o uso de crianças para pedir esmolas; a exploração do trabalho infantil; a prostituição. Há outros muito comuns, mas menos criticados como aproveitar a fragilidade emocional das crianças para obter vantagem de qualquer espécie, afetiva ou econômica, e utilizar crianças e adolescentes para obter dividendos políticos.
Não faltam casos de exploração da fragilidade emocional e política de crianças e adolescentes no Brasil. Mas é nos Estados Unidos, um país desenvolvido, superpotência mundial, que ocorre o episódio que pode ser considerado uma demonstração do mais absoluto desprezo pelos direitos da criança. É o caso de Elián González, um cubano de 6 anos de idade.
A mãe de Elián, seu marido padrasto do garoto e mais oito adultos resolveram arriscar a travessia do Estreito da Flórida, a barco, para chegar à Flórida. A imprensa norte-americana e os que no Brasil costumam utilizar sua linguagem padronizada (para não ter de pensar por conta própria) dizem que os cubanos que tentam entrar ilegalmente nos Estados Unidos estão fugindo do governo de Fidel Castro. Para eles, só cubanos fogem, cidadãos de outros países apenas tentam imigrar por razões simplesmente econômicas.
Elián escapou do naufrágio. Todos os demais, inclusive sua mãe, morreram. O garoto foi levado a Miami e entregue a tios-avós que integram a numerosa e influente comunidade cubano-norte-americana, os que aí, sim fugiram da revolução vitoriosa em 1959 e seus descendentes.
O pai de Elián, que não quer sair de Cuba, pediu que o filho lhe seja devolvido. Mas o governo dos EUA e os cubanos da Flórida resolveram explorar politicamente o episódio e até hoje não devolveram Elián a seu pai. Os tios-avós, incentivados pela Fundação Nacional Cubano-Americana acusada de terrorismo e corrupção não demonstram a menor preocupação com a estabilidade emocional de Elián, expondo-o publicamente e querendo convencê-lo a ficar nos Estados Unidos com base no melhor argumento que conhecem: as atrações da sociedade de consumo.
Imaginam que, seduzido pelos brinquedos eletrônicos que recebe, pelos sanduíches do McDonalds e pela Disneyworld, Elián prefira ficar nos Estados Unidos a voltar para seus pai e para Cuba. Pode até ser que tenham sucesso, mas à custa da manipulação política criminosa de uma criança de 6 anos.
E o governo norte-americano ainda se arvora a dar lições morais ao mundo. E são esses cubanos (hoje, na verdade, mais estadunidenses do que cubanos) que pretendem governar a Ilha caso como esperam há 41 anos o socialismo dê lugar ao capitalismo. Acabarão com a escola e a medicina gratuitas e de qualidade, mas talvez construam uma Disneyworld em Havana...





