Um capinador do campo é especializado em capinação, e sabe-se quanto é sofrida essa tarefa. No entanto, ele ganha em torno de um salário mínimo. A função de um lixeiro, nem é preciso dizer o quanto é penosa, inclusive pelo malcheiro e pelas doenças a que se expõe. Mas seu ganho mal dá para o sustento da família. E esse profissional é um especialista no ofício, mesmo que não tenha cursado universidade para aprendê-lo. Um lixeiro deveria ganhar o mesmo que um graduado superior. No Brasil vigora o conceito de que só merece alto salário quem opera num gabinete, ou ostente diploma de curso superior, ou tenha especialização específica ou trabalhe para uma grande empresa, pública ou privada. Nivelou-se por baixo o trabalhador do serviço pesado e também o seu salário. Se um profissional especializado deve ter bom ganho, o mesmo tratamento deve ser dado a qualquer outro serviçal, havendo casos em que um trabalhador mais sacrificado, em face do esforço físico, das exposições a perigos e outras circunstâncias, deveria ter salário mais alto. A humanidade necessita de todo o tipo de obreiro. O mundo seria o caos sem os recolhedores de lixo e morreria de fome sem o homem que cultiva a terra e produz alimentos, e assim por diante, pois todo trabalho exige conhecimento e maestria. Certamente que um perito em agricultura passou por exaustiva experiência até chegar à graduação nessa especialidade. Há os que aprendem nos bancos escolares e os que aprendem na prática. Os dois aprendizados se equivalem. Estes comentários vêm a propósito da publicação de nota neste jornal revelando que a esposa de um deputado federal e depois ministro exerce destacada função em empresa estatal e ganha elevado salário. No caso, parece afastada a condição de nepotismo, por se tratar de profissional capacitada, mas o que se questiona é justamente a disparidade de valores com relação ao ganho do trabalhador genérico brasileiro, tanto no setor público como no privado. Impera a cultura, típica de países atrasados, de que trabalhador braçal tem de ganhar pouco, porque sua profissão não está catalogada entre as nobres. Trabalhar sob sol escaldante na construção de um edifício, com alta possibilidade de acidentes, não é uma profissão exaltada, embora tanto se enalteça a figura desses operários e dos seus iguais. Tal louvação, porém, soa falsa e é apenas exercício poético, porque não há correspondência no salário. Por isso, sem culpar ganhos altos de profissionais competentes, ocorre uma reação contra eles face as essas dissonâncias salariais. O erro está na distinção de profissões e no desprezo por umas e na exaltação a outras, quando todas são indispensáveis e, portanto, iguais no mérito. Por isso os salários deveriam ser altos para todos os que trabalham, e mais altos ainda para categorias que exigem mais esforço físico e igual competência. Não incumbe baixar a renda salarial dos bem-pagos e sim elevar os baixos ganhos da grande maioria dos trabalhadores brasileiros, justamente aqueles que não podem ser dispensados de forma alguma. Implantou-se no Brasil a perversa cultura de que um diplomado tem de ganhar bem, o que é correto, e que qualquer outro, embora igualmente graduado por anos de experiência no ofício, tenha de ganhar salário de fome, o que é incorreto. É nessa mentalidade que reside o erro. Lutar contra o ganho alto de alguns não é a fórmula, e sim lutar pela elevação do salário de quem ganha pouco.

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