Edvaldo Mendes Araújo, ou apenas Zulu Araújo, é um daqueles personagens que carregam histórias de luta no olhar. Baiano de 63 anos, dedicou 40 deles à militância no movimento negro da América Latina, auxiliando de forma significativa no combate ao racismo e fortalecendo o respeito à diversidade. Arquiteto de formação, Zulu não usa os números apenas em seus projetos profissionais. Ele os utiliza como instrumento social para mostrar o massacre contra os negros no País, registrado por séculos: "Hoje 10% dos homicídios do mundo são realizados no Brasil. A maioria deles contra jovens de 15 a 29 anos e 77,7% são jovens negros", decreta.
Em Londrina recentemente para proferir uma palestra para Comissão da Promoção da Igualdade Racial e das Minorias – criada recentemente pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Londrina e coordenada pelo advogado Tito Vale e pela conselheira da Subseção Maria Lucilda dos Santos - ele conversou com a FOLHA sobre o tema. E abordou também as conquistas obtidas pelos afrodescendentes e minorias. "A necessidade agora é de uma nova agenda para o movimento negro brasileiro. Eu diria ainda mais, uma nova agenda para a sociedade brasileira", ressalta.
Zulu tem bagagem para exigir essa demanda da população do País. Entre 2007 e 2010, foi presidente da Fundação Cultural Palmares, ligada ao Ministério da Cultura, na época indicado pelo ministro Gilberto Gil. Foi também diretor de Cultura e conselheiro do Grupo Cultural Olodum por dez anos, administrador e coordenador cultural da Praça do Reggae, assessor especial da Secretaria de Cultura da Bahia e da Fundação Cultural do Estado e coordenador-geral da celebração dos 300 anos de Zumbi dos Palmares. Atualmente preside a Fundação Pedro Calmon, em Salvador, onde contribui principalmente para a preservação da história e memória da Bahia através de ações culturais.

Londrina criou recentemente uma Comissão da Promoção da Igualdade Racial e das Minorias. O senhor já participou de diversas fundações, coordenações e assessorias para fomentar este tema tão debatido e vivo no País. Como avalia as mudanças obtidas graças a todo este movimento?
A sociedade brasileira ainda possui um olhar sobre a vida da população afrodescendente de forma pouco valorativa. Temos uma sociedade que durante quatro quintos da existência não se importou com a liberdade, a vida, a saúde, a educação ou a prosperidade daqueles de origem africana. E isso hoje se manifesta no País de maneira brutal. Para resolvermos uma situação como essa, não basta apenas protestar, denunciar, ou apresentar números estatísticos, é fundamental que tenhamos a parceria da sociedade como um todo para superar o quadro.
Entre mudanças significativas, graças a todo esse trabalho, considero a implantação de três leis como fundamentais. A Lei 10.639, que introduziu na grade curricular do ensino fundamental a história da cultura afro-brasileira, quebrando com esse paradigma que preto é preguiçoso, burro e brutalizado, sem levar em conta a contribuição que demos para a formação do País. Segundo é o decreto 4.877, que estabeleceu regras para o reconhecimento de titulação das terras remanescentes de quilombos, atingindo uma questão séria ainda vigente no País, que é a reforma agrária. E a terceira delas foi no campo da educação, com a implementação de cotas para negros no ensino superior.

As vagas destinadas a negros através das cotas em universidades públicas foram eficientes para uma mudança do panorama social?
Sem dúvida. Nós conseguimos que o Supremo Tribunal Federal (STF), pela primeira vez, se manifestasse, por meio da sua mais alta corte, que há racismo no Brasil e que era necessária a adoção de medidas reparatórias para superação do mesmo, sendo que uma delas é a cota para negros nas universidades. Nos últimos três anos, de 2013 até agora, 150 mil jovens negros ingressaram nas faculdades públicas por conta dessa lei. Se somarmos desde 2003, quando a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) implementou essa ação, são mais de 450 mil pessoas que ingressaram no ensino superior a partir da adoção das cotas. Em 13 anos entraram mais jovens negros na universidade do que de 1808, quando implantada a primeira universidade na Bahia, até 2010. Quando se possibilita que a juventude acesse aos meios educacionais, de trabalho, e de mobilidade social, está se impactando diretamente na redução da violência, da exclusão e da desigualdade.

Se no âmbito constitucional é possível ver uma evolução importante para os negros e minorias do País, por que o racismo continua tão arraigado no dia a dia da sociedade?
Nós descobrimos que o racismo no Brasil é estruturante, ou seja, não basta medidas legais e políticas públicas. Para entender isso, é preciso conhecer a história do País. Dos 7 milhões de negros que foram escravizados pela humanidade, 5 milhões vieram para o Brasil. Os dois portos que mais receberam negros na história foram os do Rio de Janeiro e Bahia. O País levou ainda o maior período entre todas as nações com o regime escravocrata: 386 anos. Portanto, a sociedade brasileira foi acostumada com a escravidão. A discriminação e a desigualdade foram ações boas para ela. Hoje, é necessário convencer a sociedade que o combate ao racismo e a promoção da igualdade são bons para todos. Uma ação que faz parte da nova agenda do movimento negro brasileiro.

E a sociedade tem sido receptiva a isso?
A maioria sim, mas temos ainda alguns "bolsões" poderosos, fortes, que ocupam lugares estratégicos na estrutura política, econômica, social e de segurança no Brasil, que têm impedido que isso ocorra na velocidade necessária. Há uma indústria do crime, localizada no campo da segurança pública, vendendo a ideia de que pela violência poderemos resolver esta situação. É um grupo pequeno, mas que detém poderes excepcionais. Mais do que isso, a desigualdade promove privilégios no campo econômico, barateando mão de obra, desqualificando o pagamento, enfim, não à toa estamos retomando ao trabalho escravo no País. Não podemos ser ingênuos e pensar que essas pessoas só fazem isso porque não gostam do preto, do índio ou do japonês. Isso é feito porque se conquista privilégios e vantagens.

E quando nos deparamos com ações violentas contra negros e minorias, como aconteceu recentemente na boate gay em Orlando? O que o senhor acha que está por trás de toda essa brutalidade em pleno século XXI?
Como acontece em diversas regiões do mundo, está em curso no Brasil a criação de um grupo estimulador da intolerância. Alguns dizem que homossexuais não são filhos de Deus e portanto podem ser vítimas. Outros dizem que descendentes de africanos são filhos de satanás, e portanto não são iguais aos demais. Eu não tenho o menor problema em dar nome a esses grupos: o fundamentalismo cristão, que tem sido exercido e praticado principalmente nas igrejas neopentecostais, como a Universal do Reino de Deus e Internacional da Graça de Deus. São estimuladas a intolerância, a homofobia e a misoginia, expressas em discursos de personagens, como Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e Silas Malafaia, grandes responsáveis por esse tipo de comportamento. Esse estímulo no discurso leva a essas figuras homicidas, que efetivamente são doentes, a induzir e cometer esse tipo de prática criminosa.

E o senhor acha possível um futuro em que esse tipo de violência não exista mais?
Sou um grande otimista. Primeiramente, temos que assegurar uma base democrática. Tudo que vislumbramos no País, é preciso estar assentado na democracia. Ela é fundamental para pretos, brancos, amarelos, pobres e ricos. Dito isso, precisamos pacificar nossa sociedade, entendendo que a tolerância, o respeito à diversidade, o respeito à pluralidade e às manifestações religiosas e culturais é direito de todos, e não apenas de alguns. Sendo assim, espero que aconteça uma evolução o mais rápido possível. Eu espero que pelo menos minha neta de 6 anos possa usufruir um pouco dessa batalha que tenho travado há quatro décadas.

mockup