DIRETO DOS ANDES - Londrinense na terra de Evo Morales
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quarta-feira, 24 de junho de 2009
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
A Bolívia vive um agitado cenário político que inclui a promulgação de uma nova Constituição e eleições executivas e legislativas programadas para dezembro deste ano. Esta conjuntura é de fundamental interesse para o Brasil que, além de importar metade do gás que consome do país vizinho, defende a estabilidade boliviana como importante caminho para a integração física e política da América do Sul.
Londrinense, formado em Direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), o primeiro-secretário da Embaixada do Brasil na Bolívia Lauro de Castro Beltrão Filho, analisa a atual conjuntura política boliviana e comenta sobre a posição do Brasil como potência emergente no cenário mundial.
Qual a situação dos brasileiros que vivem na Bolívia?
Há cerca de 15 mil brasileiros vivendo na Bolívia. São estudantes de Medicina, fazendeiros migrantes que cultivam soja e criam gado, comerciantes e empresários. A situação é bastante pacífica.
A Bolívia tem nova Constituição. De que forma ela pode afetar os brasileiros, principalmente sojicultores, que vivem no País?
Há vários novos dispositivos que regulamentam a vida na Bolívia, um dos quais prevê o limite de propriedade individual a cinco mil hectares de terra. É possível que os brasileiros com propriedades que excedam esse limite tenham de se adequar. Há um diálogo entre os dois governos para que todas as mudanças sejam realizadas de forma pacífica e sempre levando em consideração as questões humanitárias.
O país vai passar por eleições presidenciais e legislativas. Qual é o quadro eleitoral atual?
Novas eleições realizam-se em 6 de dezembro de 2009. As pesquisas recentes indicam uma preferência popular pelo atual presidente, Evo Morales, que deve se reeleger.
Como o senhor avalia as relações entre Brasil e Bolívia durante o governo de Evo Morales? Quais as perspectivas diante de uma possível reeleição?
As relações entre os dois países são historicamente importantes, porque a Bolívia tem a maior fronteira com o Brasil, são mais de 3,4 mil quilometros. Os dois países iniciaram, desde a metade da década de 1990, um processo de integração energética que é positivo para toda a América do Sul. Interessa ao Brasil contribuir para a estabilidade política e institucional da região. Por isso, o apoio à Bolívia é muito importante, já que este país ocupa o centro do continente e é peça-chave para a estabilidade continental e também para o futuro do processo de integração física e política que os países sul-americanos empreendem há pelo menos 10 anos.
Quais são os interesses específicos do Brasil na Bolívia?
Interessa a estabilidade política e institucional da Bolívia, porque o Brasil importa cerca de 50% do gás utilizado no País. Desde 2006, quando o governo Evo Morales promoveu a nacionalização do gás e do petróleo, tratativos bilaterais pacíficos e construtivos têm permitido o fornecimento do gás boliviano. Portanto, interessa ao Brasil a continuidade, nos próximos anos, da importação do gás boliviano, que abastece sobretudo a indústria paulista.
Como o Brasil se posiciona no processo de integração da América do Sul?
A aspiração de integração sul-americana é centenária, data de 1830. Embora seja de longa data, resultados mais concretos têm sido observados a partir da década de 1980, com a formação do Mercosul e, alguns anos antes, na década de 1960, com a formação da Comunidade Andina de Nações. A realização da integração deriva sobretudo do esforço brasileiro, para quem esse processo é fundamental, visto que a América do Sul é a base de atuação da política externa brasileira. Manter a estabilidade da região sul-americana de forma pacífica será fruto do esforço de uma integração efetiva energética, física e política.
Como o senhor avalia a imagem do Brasil, hoje, no mundo?
O Brasil passa por uma fase de transição na política exterior, está deixando de ser uma potência média, de alcance regional, para se tornar um ator internacional de relevância global. O País é ouvido nos principais foros internacionais sobre os mais variados temas: a questão ambiental, o desarmamento, a substituição de matrizes energéticas poluentes por alternativas renováveis e a necessidade de mudanças de políticas macroeconômicas que afetem positivamente a economia mundial. É também reconhecido pela estabilidade financeira e monetária, além de não possuir grandes problemas que reduzam a sua capacidade de projeção internacional, como questões de fronteiras com países sulamericanos. Não seria ousado dizer que seremos uma das potências globais do século XXI.


