O Brasil do Carnaval, das mulatas e da dita liberdade encabeça, por mais um ano, ranking dos mais vergonhosos: é o campeão mundial de assassinatos de homossexuais. Só em 2007, foram registradas 122 mortes, número 30% maior do que em 2006. O México, segundo colocado, teve 35 assassinatos ano passado. Para muitos, vivemos o ''homocausto''.

Mas estaria a classe composta por gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (GLBTT), se mobilizando? Em Londrina, um grupo de militantes realiza a ''Pré-Conferência de Políticas para GLTTT'', hoje, na Câmara Municipal.

Em entrevista à FOLHA, Roni Lima, um dos organizadores do evento, ressalta o anseio da comunidade. ''A construção de uma política de Estado que vá equiparar nossos direitos socialmente é fundamental no avanço da construção da democracia no Brasil'', afirma.

O que vai tratar a pré-conferência?
O Governo Federal já vem desde 2004 promovendo a política ''Brasil sem Homofobia''. Neste ano, haverá a Conferência Nacional de Políticas Públicas e Direitos Humanos para a população de gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transgêneros e transexuais. Londrina, com seu meio milhão de habitantes, não poderia ficar de fora: a Pré-Conferência de Londrina é o início da construção de uma política de Estado de defesa dos direitos da população homoafetiva.

Há números precisos sobre a comunidade em Londrina?
Segundo a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), 10% da população mundial tem orientação homoafetiva. Baseados nesses números, podemos dizer que Londrina deva ter mais de 50 mil habitantes com essa orientação.

Quais bandeiras hasteiam?
A população dita GLBTTT é historicamente perseguida por meio de uma cultura homofóbica. Estamos realizando a Pré-Conferência para nos organizarmos e prepararmos para ir à Conferência Estadual, em Curitiba, e lutando para fazer com que Londrina crie um Conselho de Defesa ou até mesmo de promoção da cidadania dessa população.

Quais suas reivindicações?
Temos a questão da saúde e de especificidades para essa população. Na questão da renda, os tópicos de geração e trabalho não são ignorados: dentro do ambiente de trabalho, há uma série de prejuízos sociais quando uma pessoa se demonstra homoafetiva. Uma vez assumida sua orientação, essa pessoa passa dificuldade de colocação ou vínculo empregatício. Há também a questão previdenciária: hoje existem oito projetos de lei tramitando que buscam equiparar nossa cidadania aos heterossexuais.

O Brasil é o campeão mundial de assassinatos de homossexuais. O preconceito ainda está impregnado na sociedade?
Sem dúvidas e em várias esferas. Uma comparação: os homossexuais vivem hoje, no Brasil, uma situação parecida com aquela vivenciada por negros e mulheres, que têm sua cidadania tratada de maneira inferior. A partir do momento em que você é considerado um sub-cidadão por sua orientação sexual, torna as pessoas passíveis de violência. Os números estão aí: segundo o presidente do Grupo Gay da Bahia, Luiz Mott, vivemos o ''homocausto''. Um homossexual é morto a cada dois a três dias no País.

E o que essa política de Estado traria, como saldo futuro?
A construção de uma política que vá equiparar nossos direitos socialmente é fundamental no avanço da construção da democracia no Brasil. Os homossexuais precisam sair do estado de alerta: somos passíveis, a qualquer momento, de violência física, assédio moral, constrangimento e xingamentos. Esse é um contexto que precisa ser mudado.

Serviço:
A Pré-Conferência de Políticas para Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Transgêneros (GLTTT) acontece hoje, das 8 às 18 horas, na Câmara Municipal de Londrina. A entrada é franca.

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