Direitos humanos, democracia e cafezinho
Maria Lucia Victor Barbosa
Geralmente discursos políticos são vazios e conduzem as poucas pessoas mais bem informadas ao tédio. Mas alguns discursos políticos são danosos porque induzem a maioria mal informada ao erro. Erro que pode se transformar em voto nos sistemas democráticos, com as consequências previsíveis dependendo da pessoa em que se vota. Ou engano de consequências ainda mais fatais, quando adeptos ou simples basbaques, inflamados pela retórica caótica e destrutiva de quem falsamente apregoa o paraíso na terra, alienam-se a futuros ditadores, transferindo-lhes o melhor de cada um e lhes entregando o que mais eles querem: o poder. Poder que uma vez obtido traz consigo o esquecimento das belas promessas e em vez de paraíso impõe o inferno.
Justamente foi a retórica caótica e destrutiva que ouviu um grupo de embasbacados, no último dia do Festival de Cinema de Veneza. Os oradores, Lula e Frei Beto, obtiveram convite da prefeitura local para lá comparecer e, juntamente com a guatemalteca Rigoberta Menchú, debater sobre direitos humanos na América Latina.
Segundo a revista ‘‘Veja’’ de 22 deste, Rigoberta falou sobre os crimes praticados em seu país através das sucessivas ditaduras militares. Seguiu-se Frei Beto que, conforme Diogo Mainardi, subverteu o tema do encontro ao afirmar que direitos humanos são um mero ‘‘luxo’’ porque o fundamental é comer. Quanto a Fidel Castro, ídolo do irmão leigo Beto, foi por este justificado quanto às violações contra os direitos humanos. Disse Beto, candidamente, que ‘‘é melhor um regime autoritário em que ninguém passa fome do que uma democracia de miseráveis’’.
Enlouquecido de vaidade diante do público que o escutava embevecido, seguiu-se Lula, o três vezes derrotado como candidato à presidência da República. Dando sinais que os métodos democráticos que passam pela escolha popular já lhe são insuportáveis, e que tem pressa de alcançar o poder, o líder emblemático do PT que está sempre a se distrair em belas viagens internacionais, discursou em Veneza (onde burguesmente aproveitava a vida, inclusive, degustando a saborosa comida italiana) sobre as agruras do povo brasileiro. Ao mesmo tempo, incluiu no seu bestialógico um novo conceito de democracia, pois para ele, liberdade de imprensa, voto, tortura de presos políticos é de somenos importância. A verdadeira democracia, segundo Lula, não é ‘‘a garantia de poder gritar, mas a garantia de comer, estudar e tomar caf钒. E este pensamento, como se nota, nada tem a ver com o modo de pensar e agir de um Lula sindicalista, desgrenhado e mal vestido, que anos atrás ganhou no grito contra o governo militar a notoriedade e a fama suficientes para alçá-lo à carreira política.
Lula fez sucesso para a platéia de ‘‘defensores do povo’’ que se esbaldavam no Festival de Cinema de Veneza. Suas estatísticas causaram furor quando transformou seu país num bordel infantil. Ele, o salvador da pátria, declarou num arroubo de entusiasmo que existem no Brasil 500 mil prostitutas menores de idade. E por aí foi, expondo o ‘‘País dos Coitadinhos’’ para o delírio do seleto público.
Lula e Frei Beto, que também frequentam Cuba como turistas e, portanto, com olhos de turistas, não podem nem querem perceber como vivem os cubanos. E mais adequado será ouvir o que dizem ou ler o que escrevem os próprios cubanos que podem fazê-lo livremente fora de Cuba. Este é o caso de Carlos Alberto Montaner, co-autor do ‘‘Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano’’.
Montaner demonstra por a + b no livro, que o embargo norte-americano é um mito, que a ineficiência do governo de Castro é evidente nas escolas sem condições materiais de ensino, nos hospitais onde faltam da anestesia à aspirina, na precariedade do transporte público, na falta de produtos primários, no fato de Cuba ter ‘‘se convertido num grande prostíbulo para estrangeiros que participam do turismo sexual, aproveitando-se das infinitas penúrias econômicas do país’’.
Além do mais, afirma o escritor cubano que atualmente vive em Madri, ‘‘a Ilha mantém, com base em abortos em massa, a taxa de natalidade mais baixa do continente e a mais alta de suicídio’’.
Note-se, que mesmo antes do livro de Montaner ser escrito, já era de conhecimento internacional o fato de Fidel Castro ser um contumaz violador de direitos humanos, e sua ojeriza pelas liberdades contidas na democracia, inclusive a de eleger governantes através do voto popular. Do poder Fidel só sai morto, e isto parece encantar o piedoso Frei Beto e o famoso Lula, cuja devoção a Castro é tão grande que se revela até no prazer de fumar caríssimos charutos cubanos. Atualmente, porém, Lula divide sua admiração entre Fidel Castro e Hugo Chávez, da Venezuela, este último típica figurinha carimbada nos meios de inclinação autoritária latino-americanos.
Recorde-se ainda que Fidel Castro, hoje órfão da extinta União Soviética, buscou no primeiro momento de sua revolução a aliança com Moscou e se propôs a implantar o comunismo em Cuba. Agora não se fala mais em comunismo, mas em socialismo, o que denuncia a confusão evidente das viúvas do marxismo. Por isso, o PT e alguns outros partidos preferem não mencionar o termo correto dos antigos e verdadeiros marxistas-leninistas. Eles usam monotonamente a crítica contra o liberalismo da democracia e da liberdade de mercado, e se intitulam vagamente de oposições de esquerda. Mas que esquerda?
Ao que tudo indica, esquerda para certos políticos tropicais significa o Estado centralizador, burocratizado, corrupto, ineficiente, paternalista, clientelista, patrimonialista, infelicitador das nações latino-americanas que até hoje padecem do atraso consequente da crônica incapacidade de administrar da maioria dos seus governantes, e da mentalidade geral imbuída de xenofobismo nacionalisteiro, fechada às inovações mundiais e sensível aos demagogos.
Por estas e outras, discursos como os de Lula e Frei Beto fazem sempre recordar Nelson Rodrigues: ‘‘Subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos’’.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail [email protected]

mockup