Direitos
humanos
Vendelino Estanislau
Indignados com a violência e os incessantes massacres cometidos, faz-se necessária uma atitude mais enérgica no sentido de utilizar a fé, implantada há 500 anos no Brasil, para refletir sobre a consciência nacional. Todavia, muitos perguntarão: que tem a fé a ver com o que se passa fora dos templos? A Igreja não foi instituída para cuidar dos interesses do altar? Quem pensa assim, está dando mostras de enorme atraso cultural. Causa espanto ver como em determinados círculos se vive distante da realidade religiosa e cultural, levantando problemas há muito superados.
O rompimento da fraternidade e a falta de sinceridade nos relacionamentos humanos espelham o oposto do que Deus havia planejado para o homem, ao criá-lo à sua imagem e semelhança. O que Javé tinha em mente, ao criar o homem e a mulher, foi a imagem de um protetor, amparo e guia para quem necessitasse de ajuda e compreensão.
A auto-suficiência, instalada no coração humano, introduziu a rivalidade e a competição entre os seres humanos: a fraternidade se desfez, a doação mútua foi substituída pelo egoísmo e pelo desprezo da pessoa do irmão. Com efeito, a primeira vez que a Bíblia traçou o quadro do pecado foi em contexto social. ‘‘Se você agisse bem, andaria de cabeça erguida; mas se você não age bem, o pecado estará à sua porta, como uma fera acuada, espreitando voc꒒, disse Javé a Caim.
A bem da verdade, ao criar o homem, Javé acalentava um sonho fantástico, apresentado ao longo da civilização; um sonho com bases culturais e tecnológicas. Sonho que concluía o ‘‘homem político – o habitante da cidade’’, o ‘‘homem artista – tocador da lira e da flauta’’, o ‘‘homem artesão – forjador das armas de ferro e bronze’’.
Infelizmente, a civilização, nascida da auto-suficiência humana, contradisse este plano, gerando uma sociedade fundada no rancor, na hostilidade e na competição. Todo ser humano, nascido e educado nesta mentalidade oposta a Deus, já não percebe o contra-senso da ‘‘justiça’’, que não harmoniza nem pacifica ninguém. Apenas coloca mais lenha na fogueira para alimentar o instinto insaciável do ser humano, prenhe de ódio e de vingança.
Convido o leitor a raciocinar sobre os acontecimentos do século XX, ‘‘modelo’’ para os tempos posteriores. Não é a violência que domina em nosso derredor? Fala-se de paz, discute-se a paz, assenta-se a paz, mas não há paz. Porque a paz, construída sobre o desprezo da pessoa e da sua dignidade, é como uma casa construída sobre a areia movediça. Tripudia-se sobre os direitos mais elementares do vencido para que apareça mais vigorosa e patente a superioridade do tripudiador. Tudo isso segue a lógica do homem rancoroso, vingador do irmão e da irmã. Não foi esse o pensamento acalentado por Deus ao criar o homem à sua imagem e semelhança.
Mas o plano de Deus acerca do homem não pode submergir nas águas do dilúvio humano. Para restabelecê-lo, Javé criou o ‘‘homem religioso’’, destinado a reunir em si tudo aquilo que a auto-suficiência dividiu e separou. Para tanto, ‘‘Set teve um filho, ao qual deu o nome de Enós. E o senhor passou a ser invocado a partir de então’’.
Este ‘‘homem religioso’’ será a antítese do homem auto-suficiente. Nele, vai concretizar aquilo que Jesus apresenta como solução do problema social. Porque a missão do homem não consiste em mutilar ou destruir a vida do seu semelhante, mas em ampará-la, quando necessário, imolando a própria vida para que o irmão possa viver e prosperar. ‘‘É preciso que o Filho do Homem seja entregue e morra para ressuscitar depois’’. Somente a ressurreição pode trazer esperança de vida nova.
Acreditar que, por meio da ação concretar do homem Deus pode transformar o mundo, é ter fé que remove montanhar. Cremos que o mundo de hoje necessita desta fé para poder viver novamente com justiça, paz e segurança.
Quando esta justiça acontecer, o sorriso voltará a estampar-se no rosto das crianças, o sol da justiça voltará a brilhar, a cultura da esperança se converterá em realidade, as nações poderão respirar ares de felicidade e a luz brilhará como lâmpada acesa sobre as muralhas da ‘‘Cidade Terrestre’’. Em outras palavras, o perfume dos direitos humanos inundará o jardim do nosso lar, sonho acalentado por todos nós.
- VENDELINO ESTANISLAU é professor universitário em Curitiba

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