O esporte é visto como algo saudável e que traz inúmeros benefícios. Por esse motivo, é uma das atividades oferecidas por diversas entidades para manter crianças e jovens afastados das ruas.
Com a realização de grandes eventos esportivos no Brasil, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, se torna mais comum a discussão para formar novos atletas, que possam representar o Brasil a contento.
O futebol, aliás, é um grande atrativo para as crianças, que além de gostarem do esporte, o vêem como uma forma de ganhar dinheiro e tentar melhorar as condições de vida. O problema são as diversas situações a que essas crianças acabam se submetendo, muitas vezes abandonando os estudos e ficando longe da família.
Ana Christina Brito Lopes, doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná e consultora do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedca) alerta para o perigo de o esporte se configurar como um tipo de trabalho infantil.
''Os que trabalham com o esporte devem procurar demonstrar, de forma clara e objetiva, a clubes, federações e seus administradores, que a busca por resultados de curto-prazo, colocando crianças e adolescentes atletas com carga de treinamento de profissionais, pode apontar para duas consequências negativas: a violação dos direitos da infância e adolescência e a não conquista de melhores resultados esportivos, já que muitos atletas acabam abandonando a carreira prematuramente'', explica.
Por que o esporte pode ser considerado trabalho infantil?
O esporte tem inegáveis benefícios quando praticado por crianças e adolescentes e por isto passou a ser um direito fundamental para eles. O problema será quando passar a assumir características compatíveis com práticas profissionalizantes e proibidas por configurarem trabalho infantil abusivo - excesso de comprometimento horário, riscos para a integridade física e psicológica ou prejuízo das atividades educacionais, por exemplo. Outro aspecto que desperta preocupação é quando, em alguns casos, deixarem suas cidades para treinarem longe de suas famílias, sem um responsável legal, onde passa a habitar, e com isto, colocando em risco os demais direitos fundamentais a que têm direito e que devem ser garantidos, como saúde; respeito, liberdade e dignidade; educação, cultura, lazer; convivência familiar e comunitária, inclusive profissionalização e proteção no trabalho. Além disto, a profissionalização de acordo com a lei, só pode ser iniciada a partir dos 14 anos, na condição de aprendiz.
Como saber quando os treinos extrapolam os limites?
Uma coisa são os limites legais e, neste caso, deve-se levar em conta o respeito ao que está estabelecido para garantia dos direitos que já citamos. Para além dos direitos, há que haver uma equipe multidisciplinar que possa aferir outros limites, ou seja, de forma a não causar prejuízos objetivamente na saúde, tanto no plano físico quanto no psicológico. Hoje, estudos científicos avançaram no campo esportivo junto aos profissionais da área da saúde e basta que seja colocado em prática no sentido de avaliar-se a melhor metodologia para a formação do atleta, respeitando suas condições específicas de pessoa em desenvolvimento e não tão somente o resultado vitorioso que, claro, é o que se busca no esporte de rendimento.
Os atletas de alto rendimento precisam treinar várias horas por dia e alguns esportes exigem um início ainda na infância, como a ginástica, por exemplo. Como conciliar isso?
Antes de tudo, é preciso desmitificar a antiga ideia que a preparação esportiva do atleta de alto rendimento ocorre apenas com atividades físicas intensas e que a carga de treino, ao extremo, será suficiente para que resultados exitosos sejam alçados, como já vem sendo indicado por alguns especialistas da área esportiva. Atletas são humanos, e não máquinas infalíveis, No alto nível competitivo que o esporte mundial se encontra, o preparo psicológico é cada vez mais um diferencial para atletas de alto rendimento. Desta forma, a sociabilização, o convívio familiar, estudos, atividades culturais, lazer e qualquer outra atividade que agregue novas experiências e desafios, certamente contribuem significativamente, para que o atleta, em especial das categorias de base e que necessitam de mais atenção por serem pessoas ainda em fase de desenvolvimento, tenha garantido sua formação integralmente.
Como mudar essa imagem que as pessoas têm do esporte - como algo somente saudável - visto que muitos projetos sociais inclusive usam o esporte como forma de tirar crianças da rua?
Acho que a imagem positiva do esporte deve ser mantida. No entanto, deve-se evitar o discurso do esporte como ''salvação para tudo''. O esporte integra um conjunto de ações importantes para a formação de crianças e adolescentes, como educação, cultura, lazer e até profissionalização.
Quais outros problemas a criança ou adolescente que são muito exigidos no esporte ou na televisão/teatro podem ter?
Entendo que todo excesso é prejudicial. O risco causado pelas pressões psicológicas, a partir da própria família que, muitas vezes, promove o ingresso na profissionalização precoce, até pelo sonho dos próprios pais se sobrepor aos dos filhos ou pelo viés econômico que é o que, em grande medida, motiva o ingresso nas carreiras reconhecidas no imaginário social como ''glamourosas''.
O que parece ser o maior desafio?
A questão é muito complexa por envolver diferentes questões que se resumem em promover uma conciliação entre direitos de crianças e adolescentes e práticas culturais para a formação de atletas. Vivemos um momento especial e propício com a proximidade de grandes eventos esportivos no Brasil. Seria oportuno, nestas ocasiões, provocar a reflexão do Poder Público sobre seu papel, ou seja, que este não se limita a financiar investimentos apenas para melhores resultados esportivos de atletas de alto rendimento, em detrimento ao investimento para uma Política Nacional de Esportes que procure privilegiar, especialmente, a questão da prática esportiva na infância, que tem muitas peculiaridades e vem ocasionando restrições aos direitos fundamentais, aos quais o próprio Poder Público está obrigado a garantir, com absoluta prioridade, de acordo com o texto constitucional.
Os que trabalham com o esporte devem procurar demonstrar, de forma clara e objetiva, a clubes, federações e seus administradores, que a busca por resultados de curto-prazo, colocando crianças e adolescentes atletas com carga de treinamento de profissionais, pode apontar para duas consequências negativas: a violação dos direitos da infância e adolescência e a não conquista de melhores resultados esportivos, já que muitos atletas acabam abandonando a carreira prematuramente.

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