Direito dos não fumantes de não serem molestados
Quando o deputado Ney Leprevost (PP) declara que o projeto do governador Roberto Requião de restringir o uso do fumo em locais públicos específicos é radical, por invasão de privacidade e sob o argumento de que fere o artigo 5º da Constituição Federal, deve saber que o maior direito é o do não fumante de não ser molestado pela fumaça alheia. Entre a permissividade para fumantes espalharem fumaça em ambientes fechados e a preservação da saúde dos que não têm o vício (e são forçados a aspirar esse veneno), o bom senso pende para o óbvio.
A proposta governamental que acaba de ser enviada à Assembleia Legislativa proíbe fumar em ambiente de trabalho, casas de espetáculos, bares, restaurantes, centros comerciais, repartições públicas civis e militares e instituições de saúde e de ensino. A primeira análise será da Comissão de Constituição e Justiça. Medida semelhante já foi adotada no Estado de São Paulo.
É pertinente a proposição porque visa a defesa da saúde pública, sabendo-se também do elevado custo social para tratamento de doenças originadas do vício do tabaco e dos que, mesmo sem fumar, acabam inalando a fumaça e ficando sujeitos ao mesmo mal. O parlamentar acha que a proibição de fumar em bares é uma in-coerência (e não se sabe com relação a que, mas talvez se refira à liberação de bebida alcoólica nesses recintos). Parece desnecessária uma consulta à opinião pública (desejada pelo deputado) para saber-se o que pensa sobre a restrição ao fumo. A lei propõe o veto ao uso, nos lugares citados, de cigarro, charuto, cigarrilha, cachimbo ou qualquer outro derivado que produza fumaça. O projeto é sim radical, mas nem tudo o que tem essa característica é ilegal ou arbitrário, da mesma forma que se combate o tráfico de drogas com radicalismo. Pode-se, portanto, defender a licitude de buscar curas radicais e, queiram ou não os contrários, isto é que visa a proposta de Requião.
O projeto estabelece a aplicação de multa aos infratores, com penalidade em dobro no caso de reincidência. Tem fundamentação o argumento do chefe do Governo de que o combate ao tabagismo saiu do plano individual para ser tratado como questão de saúde pública. Já nem se pode dizer que o projeto é polêmico, porque cada vez mais, em todo o mundo, o cerco ao uso do tabaco vai se fechando e nunca houve manifestação pública coletiva em contrário. Mesmo fumantes já se manifestaram a favor das restrições.





