''O SUS é o melhor sistema de saúde que o Brasil já teve e um dos melhores do mundo''. A frase do coordenador Nacional da Pastoral da Saúde, Sebastião Geraldo Venâncio parece contraditória, uma vez que foi justamente a crise no setor que motivou a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a escolher, para a Campanha da Fraternidade deste ano, o tema ''Fraternidade e Saúde Pública''.
O problema, segundo Venâncio, é a falta de investimentos e de uma gestão mais eficiente no setor. O resultado são os problemas enfrentados pelos usuários do SUS, como longas filas de espera e dificuldades para obter remédios gratuitos, por exemplo.
Mas há luz no fim do túnel. A saída apontada pelo coordenador nacional da Pastoral da Sa© úde é a participação efetiva da sociedade na cobrança por melhorias no atendimento do setor público. E Venâncio acrescenta que a escolha do tema justamente em ano de eleições pode ajudar a gerar resultados concretos. ''O fato de ser ano eleitoral pode ser bom se as comunidades locais se organizarem e sugerirem que os candidatos assinem termos de compromisso com a saúde. Com isso registrado em cartório as pessoas devem acompanhar e cobrar que tudo seja realmente feito'', aponta Venâncio, que é graduado em Serviço Social e especialista em Pastoral da Sa© úde, Bioética e Dependência Química.
Sebastião Venâncio esteve em Londrina na quarta-feira para participar da Conferência sobre a Campanha da Fraternidade organizada pelo Núcleo de Pastoral da Universidade da PUC-Londrina. Na oportunidade, concedeu a seguinte entrevista à FOLHA.
Como funciona a Pastoral da Saúde?
São 80 mil agentes cadastrados em todo o País. Eles desenvolvem trabalhos em três dimensões. A primeira é a solidária, que compreende as visitas a pacientes doentes nas casas e hospitais - em alguns casos a única visita que o doente recebe é do agente da Pastoral da Saúde. A segunda dimensão é a comunitária, que abrange os itens educação e saúde, e a última é a dimensão político-institucional, que trabalha a humanização dos profissionais e políticas de saúde.
Atuamos no controle social, estamos presentes nos conselhos municipais, estaduais e nacional de saúde. Dentro desta ação agimos para defender as políticas públicas e temos participação efetiva nas conferências de saúde.
Por que neste ano foi abordado um tema social e não religioso?
Percebemos que era necessário fazer algo a mais para mudar, só as ações dos conselhos não estavam tendo o resultado esperado. Diante destes fatos a própria Pastoral da Sa© úde pediu para que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil fizesse uma campanha com este assunto. Precisávamos de 50 mil assinaturas para sustentar a proposta. Em três meses conseguimos 150 mil. As pastorais da Juventude e da Mobilidade Social, que apresentaram outros temas para este ano, acabaram nos apoiando e a decisão final partiu do Conselho Permanente dos Bispos.
O fato desta temática ser discutida em ano eleitoral torna o debate mais acalorado?
A gente achava que esta campanha seria realizada apenas em 2015, mas foi melhor agora. O fato de ser ano eleitoral pode ser bom se as comunidades locais se organizarem e sugerirem que os candidatos assinem termos de compromisso com a saúde. Com isso registrado em cartório as pessoas devem acompanhar e cobrar que tudo seja realmente feito.
O lado complicado é que muitos podem pegar carona e se eleger em cima do tema. Esta questão preocupa, por isso a equipe está orientando os agentes da Pastoral da Sa© úde para ''ficarem de olho''. O candidato que abraçar a bandeira será convidado a assinar um termo de compromisso e ele será cobrado posteriormente. Hoje a campanha não é da pastoral nem da Igreja, é da sociedade brasileira. Outras entidades nacionais, movimentos e sindicatos já aderiram e nós acreditamos nessa força. A hora é agora. Igreja, sociedade civil e agentes devem se organizar. As pessoas organizadas vencem qualquer obstáculo.
O tema da saúde já foi abordado em outras campanhas?
Sim, no início da década de 80 houve uma grande discussão com o tema Saúde para Todos. Estava terminando a ditadura e os movimentos populares impulsionaram a campanha. Foi um divisor de águas porque se discutiu sobre um possível sistema público de sa© úde e posteriormente foi criado o Sistema Único de Saúde, o SUS.
Acreditamos que teremos mudanças concretas também na campanha deste ano. Queremos incentivar a prática da medicina preventiva em vez da puramente curativa. Tem autores que mostram claramente que é muito mais barato fazer a prevenção e promoção da saúde do que cuidar do doente depois. Queremos mexer também no acesso. Hoje a maior dificuldade é conseguir uma consulta pelo SUS, demora meses. Acreditamos que vamos conseguir melhorar essa situação. É preciso fortalecer a atenção básica da saúde em todo o município brasileiro.
Quais os principais problemas da saúde?
Começamos pelo acesso, que está longe de contemplar a necessidade das pessoas. A Igreja vê também dificuldade na questão do financiamento. A presidenta cortou R$ 5,4 bilhões da saúde e nós sabemos que isso vai causar muita dificuldade. O terceiro maior problema é a gestão. Se não qualificar os gestores das unidades de saúde e secretários, não adianta. É um problema grave, estes gestores precisam ser concursados, inclusive os secretários de Saúde. Às vezes a pessoa não está qualificada e não tem conhecimento de saúde para assumir um cargo assim. Outra questão é a precarização das condições de trabalho.
Recebemos reclamações por parte da comunidade, mas também temos as equipes das pastorais da Saúde e da Criança que vivenciam a situação. Temos notícias de lugares em que as pessoas morrem sem ter o primeiro atendimento. Precisamos construir um modelo que dê acesso ao posto de sa© úde. Sem isso as pessoas vão direto para o pronto-atendimento e acabam sobrecarregando o sistema que deveria atender casos mais graves.
Quais são as propostas da Pastoral da Saúde para melhorar o sistema público?
Acreditamos que é preciso uma mudança completa de modelo. É necessário qualificar melhor os profissionais, desde a recepção até o médico. Colocar mais enfermeiros e auxiliares de enfermagem nas unidades, além de psicólogos e assistentes sociais. É preciso uma equipe interdisciplinar.
Uma das ações que queremos reforçar é o controle social. Se os conselhos de saúde funcionassem e não fossem manipulados pelos prefeitos, a situação seria melhor. O conselho tem que ter autonomia para cobrar, denunciar as irregularidades, trazer propostas e acompanhar a implantação de melhorias. Se o controle social for autônomo, ele consegue barrar muitas mazelas. Os conselheiros precisam ser eleitos e acompanhados pela comunidade. Percebemos que há um afastamento das pessoas tanto do conselho quanto das conferências de saúde. A Igreja quer formar conselheiros de saúde no Brasil todo. Este seria o gesto mais concreto para mudar. Nós não vamos parar de discutir saúde no domingo de Ramos, a Igreja vai cobrar mudanças do governo. A CNBB e a Pastoral da Saúde têm assento no Conselho Nacional de Saúde e nós vamos pressionar para que ocorram mudanças.

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