Desde 1995, o projeto de lei número 125/96 tramita no Senado Federal, estabelecendo critérios para a legalização da ''morte sem dor''. Doze anos depois, as discussões prosseguem. Mas, afinal, estaria o Brasil preparado para propiciar às pessoas com sofrimento físico ou psíquico suas respectivas sentenças de morte? Para a docente em bioética Walkiria Benedeti Cardozo Araújo, a resposta é negativa. Em entrevista à FOLHA, Walkiria elenca os porquês de o Brasil não estar preparado para a adoção da eutanásia.

Qual a posição da senhora em relação à eutanásia?
Em um primeiro momento, sou contra a eutanásia no Brasil. Acredito que ainda há um despreparo para se analisar um futuro projeto de lei em relação a esse assunto. Antes de qualquer coisa, seria necessário muito diálogo.

E como se daria esse diálogo?
Aposto num diálogo multidisciplinar envolvendo todos aqueles que têm interesse em colocar suas posições, sejam elas favoráveis ou contrárias. Ressalto que esse diálogo teria de ser respaldado, ou seja, que cada pessoa que estiver ali, dialogando, saiba o início, meio e fim de uma eutanásia com dignidade.

Por que a senhora acredita que a eutanásia no Brasil não funcionaria?
Devido à nossa cultura. Primeiramente, para você ter um projeto de lei, que se refere à área jurídica, seria necessário estar muito bem respaldado em relação à verdadeira situação brasileira. Cito, como exemplo, uma análise completa do Sistema Único de Saúde, o retorno disso, os tipos de doença nos quais seria válida. Por outro lado, aqueles que têm uma posição positiva, baseiam-se naquilo que acontece fora do país. No entanto, devemos trazer a discussão ao plano nacional: estaria nossa cultura religiosa, social e econômica preparada para aceitar esse tipo de situação?

E estaria?
Reafirmo que não. A maioria de nossa população é analfabeta funcional. Diante desse quadro, não tem conhecimento da verdadeira conclusão de se implantar a eutanásia no Brasil. Se sairmos no Brasil, numa pesquisa de campo, perguntando para as pessoas, num ponto de ônibus, nos bairros, o que é a eutanásia, muitas delas nem vão saber do que se trata.

Seria necessária, então, uma reestruturação da sociedade brasileira?
Certamente. Se formos para a Holanda, que implementou a eutanásia, com algumas regras, vemos que culturalmente o país está preparado para isso. As pessoas, no dia-a-dia, entendem do que se trata, há uma estrutura forte. No Brasil, essa estruturação da sociedade precisaria vir única e exclusivamente do governo, com uma reforma política e social para nos tirar dos quadros da mistanásia.

Mistanásia?
Sim, é a miséria total do ser humano. É aquele que nasce, vive e morre sem ter tido sequer a dignidade de ter uma vida na saúde ou em quaisquer outros âmbitos. Enquanto não houver essa reforma, essa reestruturação da sociedade, teremos muitos brasileiros despreparados para discutir quaisquer assuntos relativos à eutanásia. No atual momento, meu temor é que tenhamos o surgimento de uma nova etnia, alimentada pelos Bolsa Escola, Bolsa Família, Vale Gás, entre outros benefícios, e regida pela lógica ''para que trabalhar se tenho tudo de graça?'' Hoje, para o Brasil sair da mistanásia, deveria haver os cuidados na rede de saúde, saneamento básico, tudo o que se dirige à sobrevivência do cidadão, isto é, o artigo 5º da Constituição. Na prática, bem sabemos da diferença e realidade.

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