O critério é falho, maniqueísta, mas inevitável: como se assentam posições ao longo do espectro político senão entre direita e esquerda? Volta e meia sou interrogado nos programas da Rádio CBN ou nesta coluna sobre a validade desse tipo de colocação e me sirvo quase sempre de Norberto Bobbio, o cientista político italiano que a admitiu num dos seus derradeiros livros denominado apropriadamente ‘‘Dextra, Sinistra’’.
Ocorre que entre um pólo e outro – do infra-vermelho ao ultravioleta no caso do espectro da luz há tonalidades intermediárias – há aproximações e profundos afastamentos. Como era na topografia política da Assembléia francesa antes da Revolução das Luzes: governo à direita, oposição à esquerda. O PT, por exemplo, que insisto em configurar como o melhor partido nacional, tem também uma ultradireita e uma esquerda transbordada. Isso não enfraquece o partido, mas, ao contrário, revigora-o na dinâmica, de pensamento e ação, mais de lá do que de cá, nas suas variadas tendências internas.
O Partido Socialista francês tinha centenas de facções, o que não impedia a negociação interativa. Ao PT jamais foi conferido um papel como o dessa esquerda européia até porque tentou e não levou a cabo a conquista presidencial. Nesse particular, há quem lembre que Lula estaria predestinado a ser no Brasil o que François Mitterrand foi na França: a primeira ele perdeu para o Napoleão redivivo, o De Gaulle, e só na quarta levou a melhor. Apesar da condição de ex-trabalhador e operário, o que vem em favor de Lula, não dá para comparar o padrão de um e de outro e isso sem qualquer preconceito.
Esses juízos, do que é esquerda ou direita, condicionam-se no tempo: Getúlio Vargas diante do Brigadeiro Eduardo Gomes seria a esquerda e Juscelino face a Juarez Távora (da Coluna Prestes) também? Quando da frente pelas diretas essas pessoas que se agridem hoje estavam todas no mesmo palanque: FHC, Tancredo, Lula, Montoro, Richa, Brizola, Ulysses. Aí ela era a esquerda na perspectiva do processo, a direita era o sistema. No PDS, a vitória de Maluf sobre Mário Andreazza levou a dissidência a criar o PFL, comandado por ACM, e que iria com Tancredo no Colégio Eleitoral. O relativismo das situações leva à cautela.
Há os delirantes da esquerda e da direita, aqueles que não agregam e assim mesmo acabam pesando, descompromissados com a realidade imediata. E da direita vieram alguns dos melhores quadros da esquerda real do Brasil como Alceu Amoroso Lima, Helder Câmara, Roland Corbusier, Santiago Dantas, egressos do integralismo de Plínio Salgado. Não é uma questão simples como costumam sugerir os camelôs e prestidigitadores da política.
DUALISMO Houve um tempo em que a divisão clássica da política era entre conservadores (tories) e liberais (whigs). Pois há algumas sentenças, aliás apropriadas à experiência brasileira, segundo as quais nada há de mais conservador do que um liberal no governo.
Outro exemplo dessa variabilidade foi no pós-morte de Kennedy: temia-se um surto de conservadorismo extremo com a posse de Lyndon Johnsson e houve justamente o contrário com avanços significativos na questão da integração dos negros. Não esquecer também que foi sob a regência de um suposto direitista, Richard Nixon, que tivemos considerável distensão com a abertura da negociação com a China Continental.
Um dos equívocos de hoje está na confusão entre neoliberalismo e liberalismo, quando aquele é a negação ontológica, essencial deste, pela simples condição de expressar uma hegemonia fundamentalista e totalitária, o que desde logo o coloca quase como ‘‘verdade revelada’’. Também o socialismo era traído pelos que o propunham negando o exercício da liberdade como se essa fosse apenas, e não mais do que isso, uma aspiração ‘‘pequeno-burguesa’’.
PERSONALISMO Uma das maiores deficiências históricas do Brasil é a da busca do homem providencial, fenômeno constante em nossos hábitos. Aplica-se aí o que Bertold Brecht em ‘‘Galileu, Galilei’’ diz sobre a infelicidade que existe nos países que carecem de heróis. É uma exigência radical de lucidez, inaplicável a quem viaja, como todos nós, na fantasia e que cultua não apenas aqueles heróis da mitologia como os próprios personagens históricos (Tiradentes, Frei Caneca, Plácido de Castro), igualmente mitificados.
Essa condição se soma ao personalismo, ao individualismo, e num transbordo, ainda mais forte, com o messianismo que aparece em Getúlio Vargas e quase se dá com Jânio Quadros e com Collor de Mello, com este último se identificando com heróis das histórias em quadrinhos pilotando avião subsônico ou fazendo corridas no Brasil e em Nova York como atleta compulsivo.
Aqui no Paraná, exemplos desse culto à personalidade estão em Alvaro Dias, Roberto Requião, Rafael Greca, nuns mais intensamente do que noutros e não aparece em um só dos governantes do período dos milicos, apesar de nele haver figurado Ney Braga, autor da maior revolução político-administrativa. Sinais de modéstia fortíssima em Parigot de Souza, Emílio Gomes e, mais ainda, nessa admirável expressão de estadista que é José Hosken de Novaes. Cansei de vê-lo dispensando, na condição de governador, o motorista e carregando no braço as compras do supermercado.
SILOGISMO Silogismo é uma abreviação, um corta caminho da lógica e jamais uma reflexão logística sobre os silos.
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