Direcionamento para solucionar problemas
Sem marchas reivindicatórias e sem pressões pouco se consegue no Brasil, e é certo que toda mobilização ganha força quando emerge das bases. Este é o ponto de partida das lutas sociais e o mais capaz de sensibilizar os poderes. Se são ou não justificados certos métodos, a verdade é que por trás de um movimento popular há um problema. A marcha dos sem-terra que hoje parte de Goiania na direção de Brasília é antes de tudo uma evidência da pobreza brasileira. Que se manifesta em vários bolsões, onde não falta apenas o quinhão da terra para quem é do ramo e quer cultivá-lo, mas falta também a moradia decente para milhões, falta alimento, saúde, educação, falta alfabetização e falta emprego. Justificar que nesse meio também vicejam indolentes, oportunistas e delinqüentes não invalida que se inclua também isto como uma das facetas da miséria. Porque eles proliferam onde há campo propício. No MST, certamente, metade dos que acampam ou marcham não tem conhecimento da vida do campo, não sendo portanto colonos, mas a realidade é que eles são na grande maioria pessoas que vivem à margem e compõem a massa dos excluídos sociais. Se algumas metodologias das lideranças desse movimento são condenáveis, como a invasão da propriedade alheia, a violência e a quebra da ordem legal, os governantes e a sociedade devem saber que este é um problema que toca a todos e que é preciso solucionar. O que não falta no Brasil é terra, porque a população é pequena para um território tão vasto e produtivo. Faltam apenas projetos consistentes, que não apenas assente o realmente desejoso de trabalhar mas lhe dê condições de sustentação e de formação de riqueza, porque este é o ideal e um direito de todos os cidadãos. E ao se olhar para os sem-terra, há que alcançar também os com-terra, porque eles passam igualmente por dificuldades. Da mesma forma não se pode culpar os grandes proprietários rurais pelo problema agrário, porque eles não subtrairam de ninguém as suas terras e as estão fazendo produzir, para suprir a mesa dos brasileiros, dar empregos, dinamizar a economia e ainda fornecendo para o mercado externo, que dá o retorno por via de preciosos dólares, necessários para um país ainda em desenvolvimento e que também precisa importar infra-estrutura, de forma a ainda mais crescer. Não é pela infernização dos grandes produtores, como desejam certos dirigentes do MST, e nem pela desestabilização do agronegócio de escala que se exerce cidadania, porque na agricultura e na pecuária extensivas e nos seus desdobramentos estão os grandes pilares de sustentação da economia nacional, não só pela produção mas também pela empregabilidade. Há terra produtiva em abundância para todos, dependendo também de que os reivindicantes aceitem deslocar-se para onde ela se encontra e ali finque raízes, como fizeram os colonizadores do passado. Ganhar um pedaço de terra à margem de rodovias pavimentadas, perto das cidades, e vende-lo na primeira oportunidade, não é reforma agrária, mas se isso ocorre é porque faltam projetos bem fundamentados, eventualmente em sistema cooperativo e que evitem este tipo de coisa. Experiências bem sucedidas da iniciativa privada, nesse sentido, não faltam no Brasil. Foi isto que fez o agronegócio prosperar. A reforma agrária pode ser uma continuidade desses experimentos, se não emperrar nas malhas da incompetência governamental. Assim com os sem-terra e assim com os sem-outras-coisas, que formam um universo de 40 milhões de brasileiros indigentes. Faltam, enfim, os grandes projetos, que não podem ser executados por burocratas mas por equipes técnicas, e isto só depende de firme direcionamento do Governo e também do patriotismo e da organização da sociedade.





