Diógenes e seu filho

Padre Roque Zimmermann
Conta a história que Diógenes, filósofo grego antigo, teve como pai um cambista de má reputação que, entre outras coisas, falsificava moeda. Descoberto, foi para a cadeia. Este comportamento do pai dificultou a Diógenes ser aceito como discípulo por Antístenes (outro mestre antigo). Foi enxotado pelo mestre, literalmente, que não acreditava nos propósitos de Diógenes. Mas a insistência em querer alcançar a ‘‘sabedoria’’ fez com que Antístenes reconsiderasse a decisão inicial.
Diógenes convenceu o mestre a aceitá-lo ao dizer-lhe que seu objetivo na vida era continuar fazendo o mesmo que seu pai fizera – ‘‘falsificar a moeda’’. Entretanto, não nos moldes que seu pai agira, mas em grau bem maior. Pretendia falsificar toda a moeda corrente da humanidade. Dizia ele que ‘‘todas as cunhagens convencionais eram falsas’’. Assim eram ‘‘os homens cunhados como generais ou reis; as coisas, cunhadas como honra, sabedoria e felicidade; tudo era metal vil com inscrições mentirosas’’. A vida de Diógenes foi coerente com o seu discurso inicial. Foi pautada por verdadeira paixão pela ‘‘virtude’’ e desprezo pela riqueza.
As recorrentes discussões travadas nas esferas governamentais sobre a falta de dinheiro me parecem que têm a ver ou com a história de Diógenes ou com a de seu pai. Pois existe uma distância incomensurável entre o discurso do governo e a prática. É preciso, antes de qualquer coisa, entender a lógica do projeto de sociedade que este governo tem em vista. Caso contrário, corremos o risco de, ao falarmos de ‘‘falsificar a moeda’’, não estarmos tendo o mesmo entendimento. Como vimos, bem diversos na atitude de Diógenes e na de seu pai.
O tratamento dispensado pelo governo é muito diferente quando está em jogo o interesse dos grandes e dos pequenos. Para estes sempre faltam recursos. O salário mínimo de R$ 151 para os trabalhadores aposentados e da ativa é absolutamente vergonhoso. Porém, não é possível dar mais, dizem eles. Os recursos (perto de R$ 41 bilhões) retirados da Previdência, da educação e da saúde no orçamento de 2000, para o governo gastar como quiser, é outro escândalo.
Que dizer, então, sobre a frustração da renegociação das dívidas dos pequenos agricultores? Ou, ainda, da escassez de recursos para o financiamento da agricultura familiar? Sem falar da falta de programas consistentes para os pequenos na área da indústria, do comércio, dos serviços e da agricultura. Enfim, toda a realidade que envolve os pequenos vive no mundo do caos, porque o governo alega não ter dinheiro para estes setores.
Por outro lado, o dinheiro aflora fácil quando está em jogo o interesse, com frequência fraudulento, de um banqueiro. Ou então, quando são renegociadas as dívidas dos grandes fazendeiros e disponibilizados em geral em extraordinária rapidez para financiar grandes agropecuaristas. O governo não tem pena também de gastar pagando juros caros a especuladores nacionais e internacionais. Sempre emperra quando está em jogo a produção a ser gerada pelos pequenos.
O prejuízo do Banco Central (BC) em 1999 é um reflexo claro das prioridades do governo no emprego do dinheiro. Só com a desvalorização cambial de janeiro de 99 foram R$ 7,6 bilhões pelo ralo. Para acudir banco quebrado, o governo emprestou R$ 15,6 bilhões (!!!). Estes dois fatores foram os principais responsáveis pelo prejuízo de R$ 13 bilhões do Banco Central no ano passado.
Por falar em BC, prejuízo e falta de dinheiro para atividades econômicas menores, é interessante a forma como são tratadas as dívidas (ou, melhor, os ‘‘pinotes’’) dos grandes. O sumiço (desde 1997) da papelada da ‘‘quebra’’ do Banco Nacional no Banco Central mostra que não falta dinheiro nos cofres do governo quando há um grande na jogada. Muito embora o processo contra o Nacional prescreva já em junho deste ano, parece não fazer falta ao governo os R$ 15,2 bilhões de prejuízo. O País que pague. Mais: dos 85 volumes do processo original, apenas 33 foram recuperados. Sem os documentos, os advogados do ‘‘quebrado’’ alegarão não dispor de elementos para montar a defesa. O prazo legal do rombo prescreve e os pequenos, de novo, irão amargar um prejuízo de R$ 15,2 bilhões.
Com esse dinheiro, daria para comprar 380 mil tratores ou 102 mil colheitadeiras equipadas com plataformas para a ceifa de soja e milho. Ou, então, construir mais de 1 milhão (!) de moradias populares com 40 m2 cada. Também, com os R$ 15,2 bilhões, seria possível pagar a diferença do aumento dos salários dos aposentados e pensionistas (indo para R$ 180) durante mais de três anos, conforme cálculos divulgados pela imprensa.
Pelas atitudes do governo é que se pode descobrir qual é o verdadeiro propósito quando diz que falta dinheiro. Com quem se parece mais o governo quando vem a público dizer que não tem dinheiro? Com Diógenes ou com o pai? A moeda é ‘‘falseada’’, no caso brasileiro, para faltar aos pequenos e fartar aos grandes.
- PADRE ROQUE ZIMMERMANN é deputado federal do PT-PR e professor licenciado do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Ponta Grossa

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