Estimular a economia local, fornecer crédito para a população mais carente e ainda unir a comunidade. Essas são as vantagens dos bancos e moedas sociais ou complementares. O primeiro banco social - Banco Palma - surgiu na comunidade do Conjunto Palmeira, na periferia de Fortaleza (CE), há 12 anos. Hoje são cerca de 51 bancos no Brasil.
Diogo Tsukumo, coordenador do Núcleo de Economia Solidária (Nesol) da Universidade de São Paulo (USP), é responsável por ajudar as comunidades a formarem seus bancos. Uma iniciativa que, segundo ele, é tendência mundial. A prova é que Tsukumo participou recentemente de um encontro sobre moedas complementares na França.
Tsukumo observa ainda que as moedas sociais podem ser a porta de saída dos programas sociais do governo. ''A moeda social é uma estratégia que temos desenvolvido há muito tempo e tem uma potencialidade para contribuir com as metas atuais do governo de erradicação da pobreza. Enxergamos que essas metodologias podem ser uma porta de saída desses programas do governo, como o Bolsa Família'', explica.
Qual a importância dos bancos e moedas sociais?
São um instrumento de fomento ao desenvolvimento social comunitário. A importância para eles é conseguir, através dessa metodologia que foi desenvolvida pelo Banco Palma (banco de economia solidária no Conjunto Palmeira, um bairro popular, com 32 mil moradores, situado na periferia de Fortaleza - CE), reorganizar a economia do seu bairro.
Para cada comunidade essa metodologia resulta em uma experiência diferente, com características específicas. Os benefícios são diversos e abrangem desde geração de trabalho na própria comunidade, aumento do comércio local, aumento da liquidez econômica do bairro, maior compra e venda nos mercadinhos, no cabeleireiro do bairro, no açougue, na padaria. O comércio local é estimulado através dessa metodologia e também é registrado o surgimento de novos empreedimentos, novos negócios.
É muito complexo montar um banco social?
Por mais que seja um banco, com diversas gamas de serviços à comunidade, é um procedimento relativamente simples. Temos um processo de formação. Primeiro fazemos um contato com a comunidade, fazemos um diagnóstico, explicamos como é o banco para saber se eles realmente querem isso, se eles vão se apropriar da estratégia porque eles são os principais responsáveis por desenvolver essa metodologia.
Feito isso, fazemos um projeto de formação oferecendo alguns cursos para a comunidade inteira. Depois a própria comunidade indica pessoas para ter um curso mais específico sobre concessão dos créditos, controle da moeda social, análise de crédito. Então é inaugurado o banco. E aí o trabalho começa, as dificuldades, as dúvidas começam a aparecer e é na prática que a gente vai acompanhando, dando orientações, fazendo intercâmbio com as comunidades que já têm banco comunitário para elas dizerem como funciona. Tem comunidade que rapidamente se apropria da ideia, já começa a criar novos serviços e dinâmicas, tem outras que precisam de mais acompanhamento para conseguir deslanchar.
Na sua experiência, o que o senhor já viu de melhorias nas comunidades?
Para a comunidade isso traz uma série de mudanças. A principal delas talvez seja a organização da comunidade. O banco estimula um fórum de desenvolvimento econômico local, onde todo mundo se junta para discutir todo tipo de questão e até sobre o próprio banco.
A ideia é que o banco social possa contribuir para a solução de outros problemas comunitários, como a violência e as drogas, não é?
Exato. Como o banco tem uma entrada econômica e quando mexe no bolso todo mundo se interessa, você consegue aglutinar as pessoas em torno dessa proposta. Isso estimula muito a participação das pessoas e outras pautas aparecem, como infraestrutura do bairro, posto de saúde, reurbanização da pracinha do bairro, violência doméstica.
Qualquer pessoa pode criar uma moeda social? O Banco Central impõe alguma restrição?
No passado, quando o Banco Palmas teve início, o Banco Central entrou com um processo. Houve algumas denúncias, dizendo que havia uma entidade emitindo moeda e isso é da competência somente do Banco Central. O BC começou a investigar o que era aquela iniciativa e depois chegou à conclusão de que aquilo de forma alguma era uma prática que feria os princípios legais. Hoje em dia temos uma relação muito boa com o Banco Central, há um grupo de trabalho em que a gente discute, pesquisa.
Anualmente tem o seminário que o Banco Central promove sobre inclusão financeira, para criar normativas e leis que regulamentem como funciona isso. Atualmente não existe nenhum tipo de legislação que nos regularize frente ao Sistema Financeiro tradicional, não tem nenhum tipo de burocracia. O que existem são algumas regras para se ter uma moeda social.
Toda moeda social é indexada. Uma moeda social é igual a um real sempre. Para colocar uma moeda social em circulação, precisa ter um real guardado em cofre, o chamado lastro. Se houver 10 mil moedas sociais circulando em uma comunidade, necessariamente tem que haver R$ 10 mil guardados no cofre de um banco oficial, caso algum comerciante cadastrado no banco queira trocar suas moedas sociais.
De onde vem o dinheiro para o lastro?
São diversas formas. Hoje a gente faz captação com algumas empresas, que querem fazer programas de responsabilidade social e doam, ou fazemos algumas campanhas para arrecadação de doação de pessoas físicas. Aqui em São Paulo a gente tem promovido alguns eventos com um restaurante que serve um ''brunch'' no sábado e parte do lucro vira dinheiro para o lastro da moeda social. Tem também quem empreste, como as comunidades de igrejas, e depois de três anos nós devolvemos.
O senhor esteve recentemente na França para um encontro sobre moedas sociais. Como está o Brasil nesse panorama?
Existe uma experiência enorme nesse sentido no mundo. Em alguns países trabalham apenas com moeda complementar, não usam a moeda oficial nos bancos sociais. A moeda social é uma estratégia que temos desenvolvido há muito tempo e tem uma potencialidade para contribuir com as metas atuais do governo de erradicação da pobreza. Enxergamos que essas metodologias podem ser uma porta de saída desses programas do governo, como o Bolsa Família. As pessoas que participam desses programas têm uma renda mensal garantida e ninguém quer que essa renda seja eterna. A gente quer vislumbrar o final desse processo. Potencializando essa renda com microcrédito, eles podem desenvolver atividades econômicas e deixarem esses programas. Pode ser um caminho para superação da pobreza.

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