Dilma e as manifestações
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de agosto de 2015
Rodrigo Augusto Prando 
No último domingo (16/8) a sociedade brasileira corroborou os índices de rejeição ao governo Dilma Rousseff e, novamente, saiu às ruas para protestar. Os tempos da política do governo - daquele desenvolvido entre os políticos, no Planalto, no Senado e na Câmara dos Deputados são distintos do tempo dos movimentos que fazem o chamamento para a ida às ruas. Vejamos.
Nas últimas semanas, o governo reagiu e buscou, incansavelmente, trazer uma agenda positiva para o País. Agiu, contudo, não a partir de suas próprias forças, quadros políticos e inteligência. Continuou, em maior ou menor grau, dependente de sua "base aliada", isto é, do PMDB e, especificamente neste caso, do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Esforço significativo foi realizado objetivando isolar e, também, solapar o poder de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, após o histriônico rompimento deste com o Planalto. O movimento em voga crê ter obtido fôlego pois a partir do fortalecimento de Renan veio à tona um documento com propostas para estimular a economia do país e, com isso, superar o atual quadro de crise. Dias depois, uma foto sem a presença de Dilma foi estampada nos jornais: Lula, Renan, Temer e Sarney, principalmente. O recado foi claro: estão, juntos, trabalhando pela governabilidade. Será?
Marco Aurélio Nogueira, cientista político, em entrevista, afirmou que Cunha e Renan parecem retomar a história dos policiais num interrogatório: o policial mau, linha dura, e o bonzinho. Ambos, contudo, são policiais e intentam intimidar para melhor interrogar o "bandido". Essa história toda acabou por ser chamada de "acordão", cujos principais resultados foram a já aludida proposta de Renan para estimular a economia e, sobretudo, o adiamento do julgamento, pelo TCU, das contas da presidente Dilma. Não se pode esperar que o governo só apanhe. Tentou e parece ter conseguido um alívio, ainda que imediato. Penso que isolar Cunha e fortalecer Renan possa ser um tiro no pé, pois, o governo continua apresentando falta de liderança, de rumo, de objetividade.
Já em relação às manifestações, que tomaram muitas capitais, cidades médias e pequenas e o Distrito Federal, o que se viu foi, ao final, a mesma guerra de números e versões: quantitativamente, há os números de manifestantes aferidos pelos institutos de pesquisa, pela Polícia Militar e pelos organizadores. Independente dos números reais, da quantidade, vale ressaltar o aspecto qualitativo: o foco, na grande maioria dos casos, foi a figura de Dilma e Lula; a primeira, com pedidos de impeachment ou renúncia, o segundo, com pedidos de investigação e até de prisão. Dilma, sabidamente, ostenta péssimo índice de aprovação e Lula, o mítico líder sindical, carismático e intocável, parece humano (com perdão do chavão): demasiado humano. Afora essa concentração de indignação em relação a Dilma e Lula, foram valorizadas as investigações da Polícia Federal e o trabalho do juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato. Temos, ainda, em nossa cultura política, o anseio de hipervalorizar a visão personalista: odeia-se Dilma e Lula e glorifica-se Moro ou, antes, Joaquim Barbosa. Infelizmente, essa postura acaba por apequenar o debate político, assumindo ares passionais e não de racionalidade, de responsabilização e de visão dos processos históricos e das instituições.
No limite, os tempos desencontrados da política e das ruas é característico de nossa sociedade. Há, quase sempre, dificuldade de se interpretar os símbolos advindos do mundo político e das posições dos manifestantes. O que se viu, dia 16, foram insatisfação, críticas, bom humor e até grupos minoritários pedindo "intervenção constitucional". Houve clima de ódio? Sim, até houve, mas, no geral, os manifestantes foram pacíficos e sem registros de incidentes. Seja uma grande ou uma manifestação menor, as pessoas estão insatisfeitas. Aos poucos, vamos, democraticamente, aprendendo a conviver com a opinião contrária. Chamar os manifestantes de golpistas e coxinhas é bobagem, bem como tolo nominar os petistas e simpatizantes de "petralhas".


