Dilemas e desafios dos candidatos
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quinta-feira, 04 de outubro de 2001
Gaudêncio Torquato 
A construção de uma base de viabilidade política requer eixos e vetores relacionados aos atores, aos eleitores, aos partidos e, ainda, aos climas e circunstâncias dos momentos eleitorais. É tarefa complexa e extenuante, que, a esta altura, já carece de intensa mobilização das equipes e assessorias de pré-candidatos e legendas. Afinal de contas, há determinados aspectos, como a questão do discurso, que podem ser cuidados com bastante antecedência. No feixe de problemas a serem equacionados pelos partidos, há situações que se apresentam como doloridos calcanhares-de-aquiles. Examinemos alguns dilemas.
O PSDB enfrentará, primeiramente, a barreira das disputas internas, onde pelo menos três tucanos querem emplacar seus nomes à Presidência: os ministros José Serra e Paulo Renato e o governador Tasso Jereissatti. Tasso espera que a antipatia que cerca o nome de Serra funcione como trunfo a seu favor, enquanto Paulo Renato tem esperança de que possa ser o tertius de uma disputa renhida entre os dois. Ou seja, quer ser o ponto de convergência. Mais ainda: quem seja o candidato tucano, terá de provar ser bom de voto. Há, na sombra, a figura de Geraldo Alckmin, que poderá ser impedido de ser candidato ao governo de São Paulo. Nesse caso, entraria no páreo presidencial. O segundo dilema do PSDB é emplacar seu tucano na cabeça de chapa, condição hoje não mais consensual, pois o PFL e o PMDB teriam interesse na posição. No PMDB, a cabeça de chapa é a única alternativa para continuar integrando a base situacionista.
O PFL tem como desafio inserir o nome de Roseana Sarney na condição de candidata à Presidência ou aceitar a posição de vice. A primeira condição determinaria outro dilema: vencer a discriminação que, seguramente, seria interposta, mais adiante, ao nome de uma mulher como candidata ao cargo. Roseana, por sua vez, teria de subir a montanha da realidade, ganhar densidade e desenvoltura na expressão de conceitos sobre os problemas nacionais. É um exercício que ultrapassa noites de primavera e verão. Basta ver Lula, que vem treinando ''há seculos'', na estrada do conhecimento, e ainda é avaliado com muita desconfiança nesse campo.
O PMDB tem uma cordilheira para enfrentar: emplacar um candidato próprio à Presidência, de acordo com a decisão da Convenção de 9 de setembro, que não seja Itamar. Se o governador ganhar a condição de candidato, nas prévias de 20 de janeiro, o PMDB será ele e a atual direção terá de satisfazer seus caprichos. O presidente do partido, Michel Temer, garante que o candidato do PMDB vai se enquadrar no espírito partidário e aceitar as diretrizes impostas pelo programa que começa a ser esboçado. Itamar aceitaria essa condição? Para continuar na base governista, a única alternativa do PMDB é fazer com que seu candidato seja o da aliança. Se for Itamar, isso será impossível. Outro nome - que comece a sobressair em pesquisas - pode ser viável, seja Jarbas Vasconcelos, Simon ou o próprio Temer. Mas a meta de um nome peemedebista aceito pelo PFL e PSDB é pouco provável de se realizar.
O PT depara com o histórico dilema de derrubar o estigma do medo que imanta o perfil de Lula. Duda Mendonça, que inunda os programas de TV com o fator emoção, espera que a embalagem do coração melhore o visual e diminua a rejeição a Lula. Ora, não é a emoção que vai consagrar Lula, até porque o voto, no Brasil, está saindo velozmente do coração para chegar à cabeça. Lula está sendo perdoado pelo excesso de pecados dos outros. Milhares de coraçõezinhos esvoaçando, cantos e outras firulas sentimentais, sob câmera lenta, não conseguiram eleger Maluf e outros candidatos retocados com a tintura emotiva. Se Lula tiver sucesso, não será por conta da emoção mendoncista. O eleitor não é tolo nem imbecil para se deixar enganar pela cosmética televisiva. O marketing da exacerbação está sendo enterrado.
O PPS enfrentará a dificuldade de colocar Ciro nos trilhos da oposição. Se ficar no meio, confunde-se com a tibieza de alguns partidos. Ciro, por sua vez, terá de explicar como convive com o PTB, considerado um partido mais à direita. E o PSB de Garotinho, que corre o Brasil com uma mensagem messiânica, vai procurar desviar a trajetória do governador do rumo fundamentalista a fim de convencer de que se trata de um sujeito plural e global.
Candidatos e partidos que se saírem melhor das encruzilhadas, podem divisar alguma luz no horizonte. Um pequeno facho de luz que poderá ser ofuscado por tempestades e nuvens pesadas.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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