Curitiba - O aborto é um tema polêmico no mundo todo. Alguns países proíbem totalmente. Outros, como o Brasil, autorizam em casos de estupro ou quando a mãe corre risco de morte. Na Europa, determinadas nações autorizam após a mulher passar por avaliação de médicos e psicólogos. Passeatas e protestos reúnem, com frequência, defensores e críticos da interrupção da gravidez.
Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, Laércio Lopes de Araújo se posiciona contra o aborto. Ele defende, no entanto, que a prática deixe de integrar os crimes previstos no Código Penal. ''O que vale para mim pode não valer para o outro. Quando defendo a descriminalização do aborto, não faço apologia ao procedimento. Mas temos que tirar do Código Penal a proibição da interrupção da gravidez'', afirma Araújo, que é mestre em Filosofia e acadêmico de Direito.
Quais danos psicológicos podem afetar uma mulher que faz aborto?
Toda e qualquer mulher que passa pelo aborto sente culpa. Carrega isso como se fosse uma corrente. Tirar essa carga é fazer com que as pessoas aceitem seus próprios destinos. É um tabu. A descriminalização do aborto é crucial. É o único crime ligado diretamente à atitude de ser mulher. Na Argentina também é realizada essa discussão, mas lá a opinião católica é mais forte. Na Europa a discussão está mais avançada. Portugal e Europa autorizam o procedimento.
Qual perfil de mulher sofre mais com o aborto?
Nas classes mais privilegiadas financeiramente o aborto não é um problema, pois as mulheres têm acesso a bons tratamentos de saúde. Podem até ir para países onde o aborto é autorizado. As famílias pobres enfrentam mais desafios.
A classe médica aceita a legalização do aborto?
Em primeiro lugar, ninguém é a favor do aborto. Não existe nenhum médico sério que defenda isso. Mas não posso estender isso para a sociedade. O que vale para mim pode não valer para o outro. Quando defendo a descriminalização do aborto não faço apologia ao procedimento. Mas temos que tirar do Código Penal a proibição da interrupção da gravidez. Lógico que deve haver regras, como realizar até 10 ou 12 semana de gestação. Isso evitaria riscos de morte.
Por quais problemas a mulher que faz a interrupção da gravidez passa no futuro?
O aborto traz tanto danos psicológicos quanto físicos. A mulher pode apresentar quadros depressivos crônicos. No futuro, quando se tornar mãe, pode ser superprotetora, o que é nocivo ao filho. A sociedade quer que a mulher seja independente, realizada profissionalmente e entre no mercado de trabalho. Mas e se tiver um filho antes do previsto? Como realizar todas essas tarefas? Se algo acontece aos filhos, elas pensam que é um castigo por terem feito o aborto no passado. Geralmente as mulheres que são contra o procedimento são as que já fizeram aborto.
Quais são as dificuldades enfrentadas pelo filho fruto de gravidez indesejada?
Um filho indesejado é um enorme problema para si mesmo e para as figuras parentais. Culpa, dor, doença. Quando somos amados, viver não é uma tarefa muito fácil. Imagine quando não recebemos amor? Todos deveriam ter consciência que devemos ser fruto de uma relação de amor. Filhos são investimentos afetivos.
Alguns acreditam que o aborto é uma forma de assassinato. Qual a sua opinião?
A vida começa quando a criança nasce e respira sozinha, sem a ajuda da mãe. Para que a interrupção deixe de ser um crime penal, é necessário que a mulher receba amparo social. Muitos médicos são contra e não irão fazer o procedimento, mas compete ao Estado dar o direito de escolha.

mockup