Não há progresso científico sem contato com o conhecimento produzido por pesquisadores de qualquer parte do planeta. O problema é que o acesso é difícil, principalmente porque o preço das assinaturas das publicações especializadas muitas vezes é proibitivo. No entanto, há movimentos que buscam facilitar o trabalho dos cientistas.

No Brasil, quem lidera esse mobilização é o engenheiro elétrico e doutor em Ciência da Informação Hélio Kuramoto, diretor do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT). Nesta entrevista, ele afirma que a dificuldade de acesso não é exclusividade dos brasileiros e destaca a importância de se recorrer a fontes confiáveis de informação. ''Toda revista científica tem um procedimento de avaliação por pares. É este procedimento que dá confiabilidade e certificação à informação publicada'', ressalta.

Por que o pesquisador brasileiro ainda tem dificuldade de acesso ao conhecimento científico?
Não são apenas os pesquisadores brasileiros que encontram dificuldades no acesso à informação científica. O movimento do acesso livre, inclusive, começou por iniciativa dos pesquisadores de países desenvolvidos. É importante saber que a informação científica é o insumo básico para a realização de qualquer pesquisa científica e se diferencia de outros tipos de informação porque necessita passar pelo crivo dos pares do autor. Ou seja, ela passa por uma avaliação prévia.

Normalmente, os artigos científicos são publicados em revistas científicas de alto nível, que são publicações cujas assinaturas são muito caras, principalmente as internacionais. Estas publicações se encontram nos rankings das mais importantes revistas em cada área do conhecimento científico. Para se ter uma idéia, a assinatura anual de uma determinada revista pode atingir custos altíssimos, na ordem dos US$ 20 mil. E existem outras mais caras ainda.

Qual é a importância do Portal de Periódicos?
Graças à iniciativa da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior), o pesquisador brasileiro conta com o Portal de Periódicos, que oferece às universidades brasileiras e aos institutos de pesquisa públicos acesso a cerca de 15 mil títulos de periódicos científicos, certamente os mais importantes títulos em todas as áreas do conhecimento. O fato de a informação científica ser publicada em revistas científicas de acesso restrito dificulta ao pesquisador maior visibilidade dos resultados de sua pesquisa e consequentemente um maior uso ou impacto desses resultados. Portanto, o movimento do acesso livre veio não apenas para facilitar e promover o maior acesso à informação, mas principalmente para maximizar a visibilidade dos resultados das pesquisas e promover um maior uso e impacto desses resultados.

Esta dificuldade não é um paradoxo em relação ao excesso de informação disponível em meios como a internet?
Essa é uma boa pergunta. O que se encontra na internet é de acesso livre. Já as informações constantes de publicações periódicas, ou revistas científicas, aquelas mais conceituadas, não são acessíveis livremente na internet. Portanto, as informações de qualidade e que tenham sido certificadas pelos pares do autor não estão disponíveis livremente na rede. O leitor que desejar ter acesso terá que pagar pela assinatura da respectiva revista, seja em papel ou em meio eletrônico.

É também importante entender que o pesquisador tem interesse em ter acesso à informação confiável e esta nem sempre está disponível livre ou gratuitamente. A informação confiável só era acessível, antes do advento do movimento do acesso livre, mediante pagamento das assinaturas das revistas.

Na internet, qualquer um pode publicar o que desejar, a informação não passa pelo crivo de ninguém. Enquanto nas revistas científicas uma informação só é publicada após passar pela avaliação de um comitê editorial e/ou de pesquisadores que atuam na mesma área do tema do artigo submetido à revista. Esse processo de seleção se chama revisão por pares e dá confiabilidade e certificação à informação publicada nestas revistas.

O conhecimento é hoje o principal diferencial no mundo acadêmico e no mercado de trabalho?
Vivemos hoje em um mundo globalizado e o capital intelectual é aquilo que faz diferença entre as nações desenvolvidas e as outras. Tanto no mundo acadêmico como no mercado de trabalho em geral. Aqueles que são dotados de conhecimentos específicos têm maiores condições e possibilidades de sucesso em relação àqueles que não detêm o referido conhecimento. Não basta ter conhecimentos de uma forma geral.

Como funcionaria o acesso livre aos periódicos científicos?
O movimento propõe duas estratégias: a via verde e a via dourada. A via dourada propõe que as revistas adotem modelos de negócios capazes de se autosustentarem e que forneçam acesso livre ao seu conteúdo. A via verde propõe que cada universidade desenvolva e implante o seu repositório institucional de acesso livre, com o propósito de que seja depositada nesse repositório toda a produção científica da universidade.

A produção científica, neste caso, refere-se prioritariamente aos artigos publicados em revistas científicas. Isso significa que todos os pesquisadores de uma dada universidade devem obrigatoriamente depositar uma cópia de um artigo seu publicado em uma revista científica. Diversas universidades em todo o mundo já construíram ou estão desenvolvendo os seus repositórios institucionais. A integração desses repositórios em grandes repositórios possibilitará aos pesquisadores maior acesso à informação científica.

O projeto de lei 1.120/2007, de autoria do deputado Rodrigo Rollemberg (PSB), que determina a todas as universidades públicas a construção de bases de dados e criação de política nacional de acesso livre pode resolver essa dificuldade?
Esse projeto de lei é fundamental para a implantação do acesso livre no País e, mais do que isso, para possibilitar o registro e a disseminação da produção científica nacional. Será necessário discutir e estabelecer a referida política nacional de acesso livre à informação científica e, consequentemente, regulamentar todas as disposições resultado dessa política. Portanto, o caminho é longo e há muito a se fazer. Caso o projeto seja aprovado, o Brasil será o primeiro país a ter uma legislação garantindo a implantação das iniciativas de acesso livre.

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