Difícil reinvenção - Hélio Doyle
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de julho de 1998
Hélio Doyle 
Os primeiros-ministros da Grã-Bretanha, Tony Blair, e da França, Lionel Jospin, tão empenhados na tarefa de reinventar a social-democracia, podem ter novo aliado a partir de setembro: Gerhard Schroöder, o candidato do Partido Social Democrata (SPD) da Alemanha, cotado para acabar com 16 anos de domínio dos democratas-cristãos.
Se Schröoder ganhar, será a primeira vez que os três países mais importantes da Europa estarão governados ao mesmo tempo pela social-democracia. Uma oportunidade excelente para que os social-democratas se imponham como força política. Mas o que é hoje, exatamente, a social-democracia? Nos últimos tempos, a social-democracia européia, considerada centro-esquerda, não tem mostrado muitas diferenças em relação a tendências tradicionalmente tidas como de direita.
Os eleitores perderam os referenciais ideológicos, pois nada ficou mais parecido a um neoliberal do que um social-democrata no poder. O ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González é o exemplo mais notório. Blair e Jospin, em circunstâncias diferentes, têm mostrado forte disposição para definir novos rumos para a social-democracia. Pensam primeiro na européia, mas sabem que a tendência é a irradiação de suas premissas e dos modelos para os demais países.
Querem, cada um de seu lado e sem esconder uma boa dose de rivalidade, constituir uma corrente de centro-esquerda que se diferencie do neoliberalismo e do socialismo tradicional. Blair, seus ideólogos e marqueteiros falam em uma terceira via. Aliás, entre esses marqueteiros está o ministro sem pasta Peter Mandelson - o desastrado, ou mal-intencionado, que veio ao Brasil para exaltar FHC e desancar Lula, desconhecendo solenemente as mínimas regras da diplomacia e da convivência. (Mandelson não está sozinho na globalização da interferência: o presidente Carlos Menem, que igualmente nada tem de diplomata, também manifestou seu apoio à reeleição de FHC. A sorte de FHC é que as bobagens que Menem fez e faz na Argentina são pouco conhecidas no Brasil. Se fossem, esse apoio tiraria votos).
A Grã-Bretanha e a França têm, pela primeira vez nos últimos 50 anos, governos social-democratas. Ao se referir a isso, o jornal The Independent falou em experiências socialistas nos dois países, para logo abrir parênteses: Que o Novo Trabalhismo nos perdoe o uso desse termo. O neotrabalhista Blair e o socialista Jospin querem distância do socialismo. Mas também não querem que a social-democracia que professam seus partidos seja cada vez mais confundida com a doutrina dos partidos conservadores.
No empenho de criar uma nova social-democracia e se firmarem como líderes dessa nova corrente, Blair e Jospin, assim como seus seguidores, não economizam farpas. Têm, por exemplo, divergências sobre como reduzir o desemprego que ataca os dois países. A tarefa não é fácil. É difícil propor alternativas para a fórmula global de resolver os problemas do mundo. Todas se parecem, venham da direita ou da esquerda. E os problemas continuam os mesmos.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília


