DIETA EM PÍLULAS - O perigo em pequenas doses
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de março de 2009
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
O Brasil mais uma vez está à frente no consumo de inibidores de apetite, ao lado dos Estados Unidos e da Argentina, segundo estudo da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes. O que as pessoas parecem não saber, é dos altos riscos do uso dessas substâncias, ainda mais quando usadas em conjunto com outras, como hormônios e diuréticos.
Além - e apesar - disso, muitos médicos continuam receitando, mesmo sabendo dos efeitos colaterais. A psiquiatra Maria Angélica Gambarini conversou com a FOLHA em Londrina sobre o uso dessas substâncias e faz um alerta: ''são substâncias que têm efeitos colaterais muito importantes, causam dependência e danos psiquiátricos relevantes. As associações e o sofrimento que o uso causa é muito maior do que os benefícios''.
É surpresa o Brasil figurar entre os maiores consumidores de inibidores de apetite?
Não é surpresa, essa é uma estatística que se mantém apesar dos esforços tanto da área médica como governamental para mostrar os prejuízos.
Qual o motivo dessa procura no Brasil?
Não é uma procura só do Brasil, é uma procura no mundo todo, mas há alguns fatores que pesam bastante. Um deles é o fato de as pessoas necessitarem de uma ação mais rápida para perder peso, para manter a forma física e teoricamente menos dolorida do que fazer dieta, fazer ginástica. Se você não tem apetite, você não passa fome e se não passa fome, não passa vontade de comer coisas também. Atividade física, além de demorar para fazer efeito, exige um certo grau de sacrifício, nem sempre é prazeroso. Algumas pessoas têm mais facilidade para ganhar peso, outras mais dificuldade. E tem outros aspectos também. Depressão e ansiedade são comumente associados aos problemas de ganho de peso e os inibidores são estimulantes, dão bem-estar no começo do uso e eliminam essa depressão e ansiedade. O problema maior disso, é que como se desenvolve uma tolerância, o organismo se adapta rapidamente ao funcionamento deles e esse efeito desaparece.
Fora esse risco, quais os outros?
Basicamente, os inibidores promovem uma desorganização do metabolismo. Eles nunca são usados sozinhos - alguns colegas prescrevem associados a tranquilizantes, diuréticos, antidepressivos e hormônios, geralmente de tireóide. Essa prática desregula o metabolismo das pessoas, o funcionamento renal, o funcionamento das glândulas, os neurotransmissores que controlam o humor e esse é um problema muito sério.
Muitas pessoas conseguem comprar essas drogas no mercado paralelo. Existe uma facilitação por parte dos farmacêuticos ou são remédios falsificados?
É um pouco de cada coisa. Da mesma forma que há colegas que prescrevem, há farmacêuticos que não têm muitos escrúpulos para vender e há também coisas falsificadas. Infelizmente, nossa população quer mágica para resolver seus problemas. O brasileiro, mais do que outras populações, não tem muita paciência ou muito cuidado para resolução dos seus problemas, principalmente de saúde.
As pessoas então usam essas substâncias não por falta de informação, mas por comodismo?
Acho que as duas coisas. Ainda falta informação, mas mesmo tendo informação as pessoas se submentem aos riscos por facilidade.
Quais são os inibidores mais comumente usados?
Geralmente são os derivados de anfetamina, que trazem esses problemas mais sérios.
A predominância ainda é de mulheres?
Sim, na faixa etária dos 25 aos 45 anos.
As pessoas que usam essas substâncias parecem depositar sua felicidade no corpo perfeito. O que a senhora diria para elas?
As pessoas precisam aprender a gostar mais de si mesmas e isso não significa olhar no espelho e ter a imagem que elas acham a mais bonita. Gostar mais de si mesmo é saber o corpo que tem, o rosto que tem e se sentir mais bonita com aquilo que tem, que é viável. Há pessoas com um porte físico maior, uma formação óssea maior ou uma genética que favorece o acúmulo de gordura. Desde que seja controlado e não esteja doente, não vai adiantar tomar remédio, fazer essas dietas de efeito sanfona, porque não serão pessoas pequenas, magérrimas.


