Independente de qualquer numerologia, o novo formato político do País assinala distribuição mais equitativa do poder. E isso não decorre apenas do aumento da bancada de esquerda - de 104 para 113 parlamentares - ou da ocupação de administrações estaduais importantes, como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. A renovação, mesmo pequena na Câmara, será compensada pela escolha de perfis mais qualificados de alguns Estados. E, dentre os novos governadores, alguns são muito fortes e agirão com maior independência em relação ao Planalto. É o caso, por exemplo, de Mário Covas, que apesar de tucano, procurará agir com mais liberdade, definindo meios e fins próprios.
O adensamento das taxas de independência e de oposição ocorre no momento mais difícil para o governo de Fernando Henrique. O presidente certamente gostaria de contar, na quadra que se abre, com um Congresso mais conformado ao ambiente de crise e com governadores menos gastadores e comprometidos com um cenário de compressão. Eis aí o busílis. Além da crise globalizada, o presidente terá de administrar a crise internalizada. Esta, evidentemente, poderá ser contida, a partir da forte mobilização que a liturgia governamental está preparando. O discurso é claro: o País terá de se livrar do olho do furacão e necessitará do sacrifício de todos os grupamentos sociais, aí incluídos os velhinhos e as viúvas. Diante de tão graves apelos, não restará ao setor político outra alternativa que a de aceitar o jogo das circunstâncias.
Mas isso não quer significar abdicação às grandes demandas e compromissos que energizam os agentes políticos na próxima legislatura e no novo exercício administrativo nos Estados. A questão mais imediata diz respeito ao aumento de impostos e tributos que venham onerar, mais ainda, o bolso do consumidor. O grito será contundente. Os novos governos, por sua vez, hão de trabalhar para cumprir a rígida equação: não gastar mais do que se arrecada. E aqueles Estados que têm dinheiro das privatizações só poderão gastá-los em determinados setores. A resistência de governadores que dispõem daqueles recursos será intensa.
E é por isso que as administrações estaduais farão apenas ‘‘o feijão com arroz’’, coisas simples e rotineiras que qualquer governo tem obrigação de fazer. Pelo menos no primeiro biênio, projetos maiores deverão ficar arquivados. A frustração dos fornecedores aumentará. O empreguismo será contido. Cargos em comissão serão extintos. Estados em situação mais equilibrada poderão investir na área social, que reflete o interesse maior das comunidades. A consequência é que o desenho administrativo será formado por dois modelos: administrações rasteiras e sem impacto, e governos mais criativos e sociais.
A pressão da prefeitada será enorme. Lembre-se que os 5 mil prefeitos terão basicamente o ano de 99 para consolidar sua plataforma administrativa e decolar seu projeto político. Deverão se afastar seis meses antes da eleição de outubro de 2000. Grandes doses de contrariedade agitarão as veias políticas. Eleitores insatisfeitos com governantes, grupos arrependidos, prefeitos fazendo pressão, governadores fazendo plantão em Brasília a fim de descolar recursos, tudo isso poderá formar um caldeirão efervescente.
A pressão do vapor começará a sair a partir do terceiro ano dos governos, abrindo os pulmões da sociedade e melhorando um pouco o PIBFN (Produto Interno Bruto da Felicidade Nacional). Em resumo: ninguém espere entrar no paraíso antes de dois anos e picos. Desemprego, recessão, dinheiro apertado, impostos, tributos, imprecações, raivas mal contidas e depressão aumentarão as chamas do fogo quente do purgatório, que o brasileiro terá de aguentar, queira ou não. É o que se depreende das propostas apresentadas até o momento e do raio-x da situação nacional. Só assistirá a cena de camarote aquele que tiver verdinhas sob o colchão ou escondidas naquele país do ‘‘queijo esburacado’’.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
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