Pela imprensa, o governador Jaime Lerner tem anunciado sua disposição de estimular o diálogo entre os produtores rurais e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, e sua postura parece se aproximar de uma espécie de justiça salomônica. Em entrevista publicada na Folha no dia 25 deste, declarou que, confirmando a linha política a que se propôs: ‘‘Tenho a consciência de que o caminho do diálogo é o mais difícil de todos. Mas foi o que eu adotei. Não posso permitir a baderna, mas também não devo endossar atos de violência no campo e de desrespeito ao Estado de Direito’’.
De fato, a tarefa do governador é muito difícil, pois ele deve saber que está em curso, por parte das lideranças do MST, um movimento de desestruturação do campo e não a busca da reforma agrária. Jogar no campo hordas urbanas, invadir fazendas produtivas e fazendas modelo, matar gado, destruir pastagens, esperar brutalmente fazendeiros e ameaçá-los de morte, o que é apontado como forma de pressão, indicam uma distorção das aspirações relativas ao campo e são métodos que jamais poderiam ser admitidos tanto a nível federal quanto estadual, pois ferem o Estado do Direito. E na medida em que os acampados sentem que suas ações não têm consequência legal, mais são estimulados a prosseguir de forma violenta, pois se acreditam fortalecidos pelos poderes constituídos.
Por outro lado, as verdadeiras lideranças que estão por trás do MST, e que não aparecem ostensivamente como um Stédile ou um Rainha, estão alcançando um dos seus objetivos: o início do conflito entre os produtores rurais e os acampados. E já deveria saber o governador que as provocações continuadas desse movimento equivocado haveriam de desembocar num tipo de desfecho de consequências indesejáveis, apesar da atitude por parte dos fazendeiros ter sido até recentemente bastante cautelosa. Entretanto, é fácil perceber que, cansados de serem esbulhados, os proprietários estão chegando aos seus limites, e o temor provocado pelas invasões começa a se transformar em enfrentamento, reação normal de quem se vê acuado e resolve resistir lutando.
Estabelece-se, assim, uma perigosa situação de conflito na qual dificilmente funcionará a tentativa de diálogo. Somente o cumprimento da lei, a qual vem sendo sistematicamente desrespeitada pelo MST, poderá evitar que o inevitável confronto assuma proporções mais violentas.
Nesse sentido, a remoção do delegado Mário Sérgio Zachesky, apelidado de Bradock numa alusão ao herói do filme ‘‘Comando Delta’’, e que estava cumprindo mandados de prisão contra líderes do MST, parece ter feito o diálogo se transformar no monólogo de uma das partes do conflito, além de ter enfraquecido o cumprimento da lei. Isso se torna visível levando-se em consideração a retomada da fazenda Saudade por 800 sem-terra, clara revanche aos proprietários rurais e inequívoco atestado de força do MST, agora livre do delegado que os incomodava.
Enquanto aqui no Paraná estas coisas acontecem, em Belém, segundo ‘‘O Estado de S. Paulo’’ de quinta-feira passada, a chefe da Divisão de Assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Pará denunciou que ‘‘o dinheiro liberado pelo órgão para a criação de alguns assentamentos controlados pelo MST no sul do Estado vinha sendo desviado para compra de armas, rádios, bebidas e até em farras pelos lavradores’’. Ela disse que, para a Fazenda Palmares, em Paraupebas, onde vivem hoje 812 famílias, ‘‘foram liberados R$ 1,6 milhão para alimentação, fomento e habitação, mas boa parte do dinheiro serviu para outras finalidades’’. Respondendo à denúncia na forma típica de ‘‘dialogar’’ dos sem-terra, o diretor do MST em Marabá, Gladson Barbosa, limitou-se a comentar que: ‘‘O Incra não tem moral para caluniar o MST’’. Uma resposta que atesta a sensação de poder que se apoderou do movimento que manda demitir ministros e secretários de Estado como se isso fosse de sua competência.
No mesmo jornal acima citado, outra matéria demonstra como é difícil manter o diálogo com um movimento que já vai assumindo contornos de guerrilha: ‘‘Em Campo Grande, cerca de 10 mil sem-terra que invadiram a Fazenda Santo Antonio, localizada em Itaquiraí, no sul de Mato Grosso do Sul, estão acampados a 400 metros do local onde fazendeiros mantêm 2,8 mil cabeças de gado confinadas e estão promovendo um verdadeiro clima de terror, ameaçando matar o gado, matando animais silvestres e disparando tiros para o alto, numa demonstração de que estão dispostos a resistir à ordem de despejo emitida pela Justiça no sábado’’.
Assim, tem razão o governador quando afirma ter consciência de que o caminho do diálogo é o mais difícil de todos, apesar de tê-lo adotado. Na verdade, o diálogo se torna impossível na medida em que não se tem notícia de que o MST tenha se dignado alguma vez a dialogar com o governo. Desse modo, se o governador Jaime Lerner insistir apenas na justiça salomônica, pode ter a certeza de que o MST vai mandar ‘‘cortar a criança no meio’’.

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