Dia Mundial do Meio Ambiente: escolhas sensatas para garantir o futuro
"(...) seria um equívoco interpretar esses resultados como uma missão cumprida"
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quinta-feira, 04 de junho de 2026
"(...) seria um equívoco interpretar esses resultados como uma missão cumprida"
Rodrigo Berté 
Em um mundo que enfrenta eventos climáticos cada vez mais extremos, como escassez hídrica, inundações, perda acelerada da biodiversidade e crescente pressão sobre os recursos naturais, o Dia Mundial do Meio Ambiente deixa de ser apenas uma data simbólica para se tornar um momento de reflexão sobre as escolhas que definirão o futuro das próximas gerações.
Os sinais de alerta estão por toda parte. Desde ondas de calor a enchentes devastadoras até secas severas em vários continentes evidenciam que as mudanças climáticas já não são uma projeção para o futuro. Elas fazem parte do presente. E seus impactos atingem economias, cadeias produtivas, cidades e populações inteiras.
Nesse cenário global, o Brasil ocupa uma posição singular. Poucos países possuem tamanho patrimônio natural. Abrigamos cerca de 20% da biodiversidade do planeta, a maior floresta tropical do mundo, algumas das mais importantes reservas de água doce e ecossistemas fundamentais para o equilíbrio climático regional e global.
Por isso, os dados mais recentes de redução do desmatamento de 20,4% no país, com destaque para queda na Amazonia e no Cerrado, ganham relevância que ultrapassa as fronteiras nacionais e representa mais do que um indicador ambiental positivo. Ela demonstra que é possível compatibilizar desenvolvimento econômico, produção e conservação quando há planejamento, monitoramento, investimento e engajamento da sociedade.
Mas seria um equívoco interpretar esses resultados como uma missão cumprida.
A Amazônia continua exercendo papel decisivo na regulação do clima e no regime de chuvas que sustenta a agricultura brasileira. O Cerrado segue sendo reconhecido como “berço das águas do país”, afinal nesse bioma nascem as três maiores bacias hidrográficas. A Mata Atlântica, embora severamente reduzida ao longo da história, concentra milhões de brasileiros e presta serviços ambientais indispensáveis para a qualidade de vida nas áreas urbanas. O Pantanal, a Caatinga e os Pampas seguem enfrentando desafios relacionados à degradação, às queimadas e à pressão sobre seus recursos naturais.
Além disso, a conservação não pode ser medida apenas pela redução das áreas desmatadas. É preciso considerar a qualidade dos ecossistemas, a recuperação de áreas degradadas, a proteção das nascentes, a gestão adequada dos resíduos, o tratamento de esgoto, a redução das emissões de gases de efeito estufa e a capacidade das cidades de se adaptarem às transformações climáticas.
Essa visão integrada é cada vez mais necessária porque os impactos ambientais deixaram de ser um tema restrito aos especialistas. Eles afetam diretamente a saúde pública, a disponibilidade de água, a geração de energia, a produção de alimentos, os investimentos e a competitividade econômica dos países.
Não por acaso, as principais economias do mundo têm ampliado exigências ambientais em suas relações comerciais. Preservar o meio ambiente tornou-se também uma questão estratégica de desenvolvimento.
O Brasil reúne todas as condições para exercer protagonismo nessa agenda. Temos conhecimento técnico, capacidade científica, recursos naturais e uma sociedade cada vez mais consciente da importância da conservação. O desafio agora é transformar essas potencialidades em políticas permanentes e em ações concretas que resistam às mudanças de governos, aos ciclos econômicos e às pressões conjunturais.
Mais do que celebrar avanços, neste mês dedicado ao Meio Ambiente devemos reafirmar compromissos. A redução do desmatamento precisa ser consolidada. A recuperação de áreas degradadas deve ganhar escala. A universalização do saneamento precisa ser acelerada. A educação ambiental deve ocupar espaço permanente na formação das novas gerações. E empresas, instituições e cidadãos precisam compreender que sustentabilidade é uma condição para a continuidade do desenvolvimento.
O futuro não será definido pelas metas que anunciamos, mas pelas decisões que tomamos e pela capacidade de transformá-las em resultados permanentes. Preservar os biomas brasileiros, proteger nossas águas, recuperar áreas degradadas e reduzir as emissões de carbono não são escolhas facultativas. São responsabilidades inadiáveis, sob a ameaça de pagarmos um alto preço. Precisamos de ações práticas para enfrentar de forma consciente e com garantia da perpetuação de todas as formas de vida.
Rodrigo Berté é Biólogo, Pedagogo e Geógrafo, Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ph.D Em Educação e Ciências Ambientais (UNED Madrid) e pró-reitor de Graduação do Centro Universitário Internacional Uninter.


