Hoje é o Dia do Rio. Sim, o mesmo rio em que outrora a molecada aprendia a nadar, tomava banho pelada, pescava, tarrafeava, pegava lambari com peneira, bebia com a concha da mão... Quem viveu, se lembra: xixi na água era o máximo em matéria de poluição. Bons tempos!
As homenagens de hoje, por pouco, não são póstumas. Aquele rio de nossa infância não existe mais. E o rio da infância de nossos filhos é apenas um caudaloso composto industrial e doméstico que corre por estar na ribanceira, não por estar vivo.
Já houve época em que a moda era canalizá-los. O progresso exigia: rio dentro da cidade era sinônimo de sujeira. Portanto, rio limpo era rio canalizado... Assim mataram, definitivamente, o Córrego do Leme, o Córrego das Pombas, o Córrego Bom Retiro e uma boa parte do Córrego das Pedras.
Hoje, isso dá cadeia. Mas, atualmente, encontraram-se formas mais sofisticadas de exterminá-los. A presença de cromo, alumínio, chumbo, mercúrio e outros metais cancerígenos, associada a fenóis vindos dos postos de gasolina, oficinas mecânicas e lava-rápidos, aos agrotóxicos usados na malha urbana e à contaminação por coliformes (seres vivos que deveriam estar no intestino, não na água) estão condenando à morte os mais de 30 córregos urbanos de Londrina. O sagrado tornou-se ambientalmente pecaminoso.
Os fundos de vale que os margeiam, uma de nossas grandes riquezas, estão desmatados, plenos de entulhos depositados por irresponsáveis, ocupados por habitações de baixa e alta renda, ou salpicados por estações elevatórias de esgoto e galerias de efluentes domésticos e industriais clandestinos. O santuário tornou-se um inferno.
As nascentes, as mesmas que recarregam suas águas e são o berço de toda a sua fauna, estão sendo criminosamente aterradas por construtoras e loteadoras sedentas do lucro rápido. A prefeitura, nos últimos anos, ilegalmente, aprovou loteamentos em cima de minas d'água. A consequência está sendo o esgotamento dos riachos, o rebaixamento dos lençóis subterrâneos, a compactação do solo, danos à flora e fauna e a total avaria de nossa biodiversidade e clima.
Tratar nossos rios dessa forma é sentenciar, antes da hora, o mais completo desequilíbrio.
Estamos esgotando nossos recursos hídricos num ritmo sem precedentes porque aqui ainda há pessoas que tratam a natureza como patrimônio particular, infinito e inesgotável.
Também há os que criticam tão somente o Poder Público, poupando moradores e empresários irresponsáveis que cometem delitos ambientais graves, todos os dias.
Se nos lembrarmos que, antes de ser cidade, Londrina era uma grande floresta, teremos uma idéia do que fizemos, em tão pouco tempo, com nossos rios.
Entretanto, se agir rápido, a cidade ainda tem a chance de recuperá-los. Caso contrário, dentro de poucos anos, entraremos em uma espécie de sumidouro onde nenhuma ação trará resultados satisfatórios. Assim, ou recuperamos nossos rios agora ou, no futuro, só poderemos lamentar o fato de não o termos feito enquanto havia tempo.
Acredito que isso possa ser realizado através de cinco ações concretas: recuperar e proteger as nascentes dos rios da malha urbana; recompor as matas ciliares, reflorestando suas margens; retirar as habitações dos fundos de vale; definir, em cada bairro, área para depósito provisório de entulhos; tratar cada rio considerando toda a sua bacia hidrográfica.
Algumas dessas tarefas competem à prefeitura. Outras, entretanto, podem ser assumidas pela população. E, algumas delas, garantidas pelas empresas que estão às margens dos rios. Isso porque, a maioria delas, senão todas, direta ou indiretamente se servem deles e neles descarregam seus efluentes.
É claro que devemos incrementar ações educativas, fiscalizadoras e demais atitudes. Entretanto, o importante é começar.
Na vida, deve haver poucas ações tão abençoadas quanto salvar um rio. Com certeza, ano que vem, no Dia do Rio, Londrina terá mais a comemorar que a lamentar.
Quem já tomou banho de ''corgo'' sabe do que estou falando.

- LUIZ EDUARDO CHEIDA é presidente da Autarquia Municipal do Ambiente de Londrina (AMA)

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