Hoje se comemora o Dia do Médico. Existe algo a ser comemorado? Sinceramente, salvo algumas exceções, não. Já vai longe o tempo em que o médico tinha formação adequada, renda suficiente, respeito, status e por consequência, estabilidade.
Hoje os problemas começam lá atrás, na hora do vestibular. As vagas nas melhores faculdades são ocupadas por quem fez um bom cursinho. Surge o primeiro paradoxo: quem teria condições de pagar, geralmente consegue estudar de graça nas boas universidades públicas. As particulares, em sua maioria, além de caras, deixam muito a desejar.
A formação é árdua. Assim que coloca os pés na classe, o futuro médico, então com 18 ou 19 anos e pleno de ideais, tem o primeiro contato, não com a vida, mas com a morte. Cada grupo de quatro alunos recebe um cadáver para estudos. A maioria de indigentes ou de pessoas sem família.
No início, alguns alunos nem dormem direito. Criam mecanismos de autodefesa. Evitam olhar muito para o rosto daquele que já foi um dia um ser humano vivo. Depois de algumas semanas começa o lento trabalho de separação das partes e órgãos, para estudo da anatomia. Aí o corpo já tem até apelido: Zé, em boa parte dos casos. Os alunos estão vencendo uma etapa. Muitos até arriscam trabalhar sem as luvas. Outros colocam até o lanche, ainda na embalagem, sobre o cadáver, como se quisessem demonstrar exagerada e inconveniente superação.
Mas não são todos que enfrentam a realidade desta maneira. Há casos de alunos que, como fuga, embrenham-se pelo caminho do álcool e das drogas. A etapa seguinte na vida do futuro médico também é marcante. Depois da convivência com o cadáver, a convivência é com os pacientes na clínica da faculdade. De uma hora para outra, o aluno está diante de um ser vivo que, mais cedo ou mais tarde, vai virar cadáver. Não é fácil esquecer as imagens do Zé.
Está na hora de começar a aplicar e a testar os conhecimentos, na companhia do professor. Não há como não se envolver emocionalmente com aquelas pessoas carentes e doentes, que só estão ali porque não têm recursos para procurar um consultório médico ou um clínica particular.
O futuro profissional constata que não consegue resolver muitos dos problemas de seus pacientes, que não tem dinheiro nem para se alimentar e, muito menos, para comprar remédios. Vendo aqueles corredores entupidos de pessoas doentes, carentes, sobreviventes, clamando por algum tipo de assistência, muitos choram. Para sobreviver àquele clima, muito parecido com o de um hospital de campanha, o estudante, com pouco mais de 20 anos, vai criando novos mecanismos de autodefesa... para poder continuar.
Em muitos, surge aquele ar de superioridade, que muita gente confunde com arrogância. Mais uma vez é a autodefesa. Se parar no corredor para falar com uma pessoa, terá que falar com todas. E aí não consegue trabalhar. Depois de formado, se o médico tiver sorte, consegue fazer residência médica. Mas todo ano, milhares ficam sem esta oportunidade.
Seis anos de sala de aula, dois anos de residência e mais dois dedicados a alguma especialidade. Aí está o profissional, pronto para disputar um mercado de trabalho dominado por planos e seguros de saúde que exploram médicos com honorários aviltantes e pacientes com redução de exames e outros direitos.
O médico precisa e quer resgatar seus ideais da juventude. Ele deseja, mais do que ninguém, exercer sua profissão com qualidade e dignidade. Sabe que o respeito e a dedicação ao paciente representam, antes de tudo, o objetivo maior de uma profissão que ele sempre idealizou ética e nobre.
Hoje, quando circunstâncias alheias à sua vontade comprometem seus sonhos, ele se dá conta que a luta contra a doença não deve ser a única a ser vencida. É indispensável a união dos colegas para enfrentar e vencer outros desafios que, orquestrados por interesses aéticos, dedicam mais atenção e cuidados aos orçamentos e fluxos de caixa do que ao paciente, se importam mais em coibir seus direitos do que restabelecer sua saúde.
- JUAREZ ORTIZ é médico e presidente futuro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), em São Paulo
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