Ontem transcorreu o Dia Mundial do Enfermo. Enfermo, doente ou paciente não são palavras sinônimas. Uma mesma realidade, situações diferentes. Enfermo (do latim infirmus) é estar sem firmeza, sem forças. Este conceito se aplica a todos os seres humanos, porque todos somos de condição imperfeita em tudo, até na saúde. Doente (do latim dolens, tis) é estar com dores em alguma parte do corpo; este, aos poucos pode se tornar um paciente (do latim patiens, tis) que é passar a depender de outros para controlar seus males.
Por que 11 de fevereiro? Porque é o dia de Nossa Senhora de Lourdes, e em 1992 o Papa João Paulo II a ela consagrou a humanidade enferma. Na ocasião, o papa disse que vivemos ‘‘num mundo dilacerado por sofrimentos e violências, provocados pelo egoísmo e que desta forma toda a Criação geme como se estivesse em parto’’. Ele, porém, acredita que dias melhores virão, como frutos da oração e da partilha. Agradece pelo trabalho dos cientistas e pelas novas técnicas que a Medicina usa em benefício da vida. Não deixa, porém, de alertar, que em muitos lugares a saúde virou comércio e não um serviço de solidariedade. Pede às comunidades, eclesiais e civis, que se empenhem numa concreta e amorosa ação fraterna, vendo no doente ‘‘o seu Senhor e Mestre’’.
Às famílias que têm doentes, o papa recorda que é principalmente a elas que Jesus irá dizer: ‘‘Eu estava doente e me visitastes’’. Um doente em casa, é Jesus que te visita. Dê atenção. ‘‘Um doente em casa é um pára-raio contra o mal’’, dizia São João Bosco.
Na Bíblia, o Livro de Jó aborda o assunto. É uma criação literária, mas rica de ensinamentos teológicos. É o divino pai que procura, num diálogo, esclarecer a respeito dos sofrimentos. O humano quer saber porque sofre e o divino vai revelando a verdade. Jó é aquele que consegue entender e deixa que Deus venha visitá-lo quando quiser e consegue ser feliz. Nós somos os Jós deste mundo. Sofremos física e psiquicamente. Somos um pouco doentes e um pouco neuróticos. Dores no corpo e angústias na alma. É preciso saber administrar tudo isso.
Deveríamos nos ocupar mais da enfermidade, não permitindo que ela se agrave. Deveríamos dar mais atenção aos nossos hospitais, para que eles se tornassem as casas mais belas e amplas da cidade, bem melhores que os bancos e as igrejas, com muita higiene e ausência de infecções. Que os atendentes considerassem todos como membros da família. Que fôssemos defensores intransigentes dos direitos dos pacientes, e aprendêssemos a nos relacionar com eles.
Os pacientes têm direito a um atendimento atencioso, a ser chamados pelo nome e saberem o nome do médico; à liberdade religiosa e à assistência espiritual; não ser abandonados na hora da morte; à visita de parentes, mesmo fora do horário; a acompanhante durante a consulta médica, e ao sigilo; de poder ouvir um outro médico, com relação ao primeiro diagnóstico; a participar das decisões que lhe dizem respeito e a não serem discriminados quando pensam diferente.
Um doente sofre muito, quando quem o visita fala demais. E falar demais é dizer, por exemplo: ‘‘É vontade de Deus; Deus sabe o que faz; Deus prova aqueles que ama; Deus escreve certo por linhas tortas; ninguém morre antes da hora’’. Tudo papo furado. Afinal, quem o autorizou a ser intérprete de Deus? Será que é isso mesmo que Ele quer?
Fique em silêncio. Deus é silêncio e no silêncio procure ouvir. Ouvir principalmente o que não é dito. Sua presença é a melhor participação. Procure ter equilíbrio psicológico para trabalhar emoções. Os doentes são radares de alta sensibilidade e percebem logo se os amamos ou não.
- PADRE ARISTIDES DERETTI é pároco em Londrina

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