Advogado é alguém que fez seus os problemas dos outros e procura restabelecer a verdade, nos ditames da Justiça. Ele luta com as armas que o Direito lhe dá: ''A força do Direito deve superar o direito da força'' (Ruy Barbosa). A injustiça é una e indivisível; atacá-la e fazê-la recuar; aqui e ali, é sempre fazer avançar a Justiça''. (Dom Helder Câmara). Sem dúvida uma missão divina a dos advogados, de tal forma que o Papa Paulo VI não hesita em afirmar: ''Como o médico, o advogado exerce um verdadeiro ministério da caridade, o que faz com que ninguém, com exceção do sacerdote, conheça melhor que ele, a natureza humana, sob seus aspectos mais dolorosos e dramáticos.''
E não faltam dificuldades e perigos. Num país com mais de 130 mil leis, não deve ser fácil ao que se propõe conhecê-las e aplicá-las. A proliferação de leis dificulta a convivência e revela a incompetência e a leviandade de um povo. Descartes afirmou que a ''multidão de leis fornece desculpas ao vício''. E assim aparece a não-Justiça, como observa Monteiro Cobato em ''Urupês'': ''Os herdeiros impugnaram o pagamento. Move-se a traquitana da Justiça. Vai-se o palavreado tabelionesco... A Justiça engoliu aquele papel, gostou-o com outros ingredientes de praxe e ao cabo de prazos, partejou um monstrinho chamado sentença.''
Paulo Setúbal, formado em Direito e escritor, em seu livro ''Confiteor'' chama a atenção para os perigos dos advogados: ''Vi então, e hoje vejo mais do que nunca, que não há profissão mais perigosa para uma alma do que a profissão de advogado. Esses homens que lidam com o Direito, ao verem, todos os dias, o quanto é falho, e irrealizável, e burlável o dar a cada um o que é seu, vão se tornando, com o correr das anos, de tal maneira céticos, de tal maneira descrentes da justiça, que defendem com a maior sem-cerimônia os que não têm inocência e, calejados, sem mais peso na consciência, encontram sempre um direito vago para proteger os que não têm direito.'' Ah! Se soubéssemos conviver com somente 10 leis, os 10 Mandamentos do nosso Criador, e encontrássemos, centrados neles, as soluções para as nossas diatribes!
11 de agosto é a Dia de Santo Ivo, nascido na Bretanha (França) e que morreu em 1303. Em Paris, ele se esmerou no estudo da Filosofia, da Teologia e do Direito, trilogia que forma os grandes mestres do saber. Ivo de Kermatin, ao voltar à sua terra natal, aceitou o cargo de juiz do Tribunal Eclesiástico, por onde passavam as questões mais espinhosas. Com sua sabedoria, imparcialidade e espírito conciliador, desfazia as inimizades e conquistava o respeito até dos que perdiam a questão. E a defesa intransigente dos injustiçados e dos necessitados continuou depois de se ter tornado sacerdote.
Certamente um exemplo inspirador para os nossos juristas e magistrados. E é por isso que Ivo mereceu a escolha de padroeiro deles. Parece-nos que com isso somos convidados a unir os conhecimentos humanos das leis aos princípios divinos da fé. Sim! Todos os que buscam a verdade na Justiça, devem submetê-la ao juiz superior, ao paráclito (do grego ''parakléto'', advogado) e que Jesus nô-lo prometeu dizendo: ''Ele vos ensinará toda a verdade.'' É o Divino Espírito Santo. Não nos pertence o julgamento da consciência de ninguém. Esta Deus a reserva para Si: ''Nolite judicare'' ''não julgueis e não sereis julgados''. Esta nobre profissão deve, portanto, ser exercida em oração, entre dois pólos: a justiça e misericórdia.
O Padre Manoel Bernardas, em ''Páginas escolhidas'', relata-nos um acontecimento, que, se não for verdadeiro, é muito esclarecedor para os nossos homenageados. Cultivando, um lavrador, as suas herdades, descobre nas sulcos do arado uma língua humana, fresca e corada que começou logo falar: ''Sou um gentio, que vivi no paganismo, e me sepultaram neste lugar. Tive, na República, ofício de Juiz. Amei deveras a Justiça, nunca pronunciei sentença desconforme as regras da mesma. Em prêmio, o onipotente não permite que eu morra sem o batismo. Vá comunicar ao bispo, e que venha batizar-me. Como prova, após o batismo, essa língua se resolverá em cinzas.''
Mais que depressa, o aterrado lavrador levou a recado. Informado, o bispo consultou o clero, e a decisão foi a de atender ao misterioso pedido. E ao chegar, constatou a realidade, fez-lhe perguntas, próprias do rito batismal e obtendo as corretas respostas o batizou. Como prometera, imediatamente aquela língua se transformou em cinzas.
Não esqueçam, portanto, os que se decidiram pelas leis, desse exemplo de um pagão, pois neste País onde a maioria se diz católica, deveria saber superar os perigos inerentes à profissão. E não esquecendo que ''balança falsa é abominação aos olhos do Senhor'', e que é ''maldito o que faz recuar os marcos do próximo, para aumentar sua propriedade''.


- PADRE ARISTIDES DERETTI é vigário da Paróquia São Vicente de Paulo em Londrina

mockup