DIA DAS MÃES ATRÁS DAS GRADES
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sábado, 10 de maio de 2003
Luka Morais<br>Reportagem Local 
Terça-feira, dia de visita no 2º Distrito Policial de Londrina, que abriga em celas separadas mulheres grávidas e as que estão amamentando. Os quatro filhos de Eliana Arruda, 28 anos, grávida de nove meses, rodeiam a mãe. Sabem que só poderão estar de novo com ela daqui uma semana. Presa há um mês e quinze dias, acusada de tráfico de drogas, Eliana diz que a liberdade é o presente que gostaria de ganhar neste domingo, Dia das Mães.
Durante a visita dos filhos, a menina, de quatro anos, não desgrudou de Eliane. ''Ela sempre foi muito agarrada comigo. Os meninos já são mais fechados e isso desde que o pai morreu'', comentou. O marido foi assassinado no quintal da casa, dois anos atrás. ''Ela estava no meu colo e viu o pai no chão''. O motivo teria sido uma briga num bar.
A área destinada às grávidas e mulheres que estão amamentando é pequena. Duas celas, uma transformada em quarto com três colchões no chão e um aparelho de televisão. E outra que acomoda geladeira, fogareiro e mesa, além de um pequeno banheiro. Nos dias de visita, o espaço fica ainda menor. ''Você vai dar um boneca para mim?'', pergunta a filha de Eliana. Os meninos, de 12, 10 e sete anos, apenas observam os gestos da mãe.
Moradora no Jardim do Sol (zona oeste), a detenta disse que foi presa porque o irmão levou para a casa dela duas pedras de crack e 58 papelotes de cocaína. ''Ele deixou em cima da pia. Os policiais chegaram em casa e me levaram junto. Disseram que eu só ia depor e acabei presa'', relatou Eliana. Ela disse que nunca teve qualquer envolvimento com drogas, mas sabia que o irmão era usuário. ''Ele já foi ouvido pelo juiz duas vezes e disse que eu não tenho nada com isso''.
Companheira de cela, Adriana Rodrigues, 24 anos, cuida do bebê de cinco meses, que nasceu na prisão. ''Isso aqui é muito triste'', comenta, revelando uma preocupação: mês que vem terá de se separar do filho, que completa seis meses. O Código de Processo Penal não prevê qualquer atendimento diferenciado às presas gestantes. Mas o Estatuto de Criança e do Adolescente (ECA) assegura ao bebê o direito de estar com a mãe e ser amamentado. Depois de seis meses a criança passa a ser cuidada pela família ou por uma instituição.
Adriana, que foi presa por roubo, tem outros três filhos que estão com sua mãe. Ela comenta que já poderia estar em liberdade. ''Fui presa porque dois travestis assaltaram um carro e quando a polícia chegou eu estava por perto. Um deles estava com droga, mas eu não tenho envolvimento com isso'', garantiu a presa, que espera conseguir a liberdade em breve. ''É tudo o que mais quero na vida''.
Enquanto os filhos de Eliana brincam com uma bola, a mãe escreve uma carta para a irmã e completa a relação de produtos a serem comprados. Na lista, macarrão instantâneo (''o fogareiro é de uma boca só''), iogurte, frutas e cigarro. A detenta disse que sonha em voltar para casa e poder fazer um almoço para os filhos. ''Tenho saudade de tudo. Mas não vou ter casa para voltar porque minha família teve que deixar de pagar o aluguel para pagar um advogado para mim'', explicou. ''Quero sair daqui logo''.
Presa há sete meses sob acusação de furto, Rafaela Rodrigues da Silva, 20 anos, arruma as roupas de seu bebê de 1 mês e cinco dias. Tenta guardá-las na pequena bolsa de nylon. ''Ganhei tudo. Nós somos unidas, umas ajudam as outras. As advogadas trazem fraldas. Eu não sabia nada como cuidar de um bebê'', comentou.
Ao contrário de Eliana, que deve passar um período maior na prisão já que é acusada de envolvimento em tráfico de drogas, considerado crime hediondo, Rafaela enfrentou na terça-feira seu último dia de reclusão. ''Caí de bobeira. Nunca pensei em roubar nada. Mas como saímos numa turma e bebemos muito acabamos fazendo burrada'', disse.
Rafaela mora em Maringá com a mãe, que cuida de seus filhos de nove e 10 anos, e com os irmãos. ''Ela nunca veio aqui me visitar'', lamentou. Sobre o período de reclusão, disse que vai tentar apagá-lo da lembrança. ''Deus me livre, mas aqui é muito ruim. A comida, o lugar, tudo. As pessoas são legais, mas isso aqui não é vida de gente'', desabafou.
Ao se despedir das colegas de cela, Rafaela prometeu que se lembraria delas neste domingo. ''Vou comemorar o Dia das Mães com minha mãe e meus filhos. Não vou me esquecer de vocês''.


