Dia da saudade
Hoje é Dia da Saudade. Mário Quintana diz que a saudade é a cadeira de balanço, embalando sozinha. A saudade é uma das muitas manifestações da alma e pretende definir um dos seua mais complexos sentimentos. Manotti del Picchia, na poesia Banzo, procura definir o sentimento do escravo, sequestrado de sua terra, sem esperança de voltar: Saudade é estar varado de angústia, olhando o horizonte, calado, dormente, pensando, sofrendo, chorando, morrendo.
Jônatas Serrano nos diz que a definição não é fácil: O mistério insondável da saudade, quem há de desvendar, enfim, um dia? E para defini-la, enfim, quem há de achar palavras na linguagem fria? A saudade é o luar que triste invade o coração nas horas de agonia; vence as trevas com suave claridade, mas tudo envolve em funda nostalgia. Tormentos infernais, celestes gozos, há, nesse indefinível sentimento, qual é a dita maior dos desditosos. Fiel delicioso que envenena e cura, punge e consola, é gozo e sofrimento, prazer cruel, dulcíssima tortura.
Esta lembrança triste e gostosa, ou como a define Bastos Tigre, espinho cheirando a flor, tem tradução exata em poucas línguas. Toscá, em russo, sehnsucht em alemão, shauch em árabe, garod em armênio, koishii em japonês, ricordo em italiano e souvenir em francês. Nas duas últimas línguas, o significado é apenas de lembrança.
Quanto ao uso da palavra, diz-se que foi apresentada pela primeira vez pelo rei D. Duarte e que, por isso, ficou sendo chamado de Rei Saudade. No início era escrita suydade, e depois passou a ser grafada soidade. Quanto à sua origem, acredita-se que seja uma alteração da palavra soledade, de origem latina (solitatem, de solitas, atis, querendo dizer solidão, retiro, isolamento, desejo do que está ausente.
O iugoslavo Zoran Ninitch escreve num folheto publicado em 1939, que na Bósnia Herzegovina, no passado sob a influência árabe, encontrou as palavras sevdah e savdh e que, segundo ele, exprimem o mesmo sentimento da saudade em português.
Segundo Alberto Blancas, a nossa palavra portuguesa é a mais perfeita para definir esse gosto amargo dos infelizes, como a define Garret, ou esta presença dos ausentes, segundo Bilac: Saudade, es vida, es recuerdo, es pena, es algria, es esperanza, es nostalgia, es vinculo, es cariño, es afecto, es todo, porque se puede aplicar a todas las situaciones en que el alma quiere expresar su fuerza, poniendo a sua servicio el corazón. E continua: Saudade, palavra magica que los brasileños asan com las modificaciones que sus espiritos delicados y su cultura distinguida saben espresar...
E quem melhor que os poetas para definir esse sentimento que a palavra saudade carrega em seu bojo? Sim! Porque nos seus cantos, nos gestos há uma saudade, que é a saudade de Deus. Amor e ausência, segundo Manuel de Melo, são os pais da saudade. E o homem simples e às vezes rude do campo também sente saudade, como diz Catulo da Paixão Cearense: Como boi velho, cansado, pacientemente a remoer, que o capim verde que come, torna outra vez a comer, hoje, velho, relembrando minha alegre juventude, tudo quanto eu já vivi, como o boi, vou ruminando o meu passado saudoso, que foi num tempo ditoso, o capim verde e cheiroso, que quando moço eu comi!.
E Deus também sende saudade. No livro do Gênesis, na história da criação humana, simbolizada em Adão e Eva, Ele vem visitá-los, e quando eles se escondem por causa do pecado, Ele pergunta: Onde estão?. E toma a forma humana para poder conviver e partilhar com a gente. É Jesus. E ele diz: Até os vossos cabelos estão todos contados... Na casa do meu Pai há muitas moradas para vocês... Eu estarei com vocês até o fim dos tempos. Isso não é saudade?
Sim, é saudade, carícia que restou da passada ternura, árvore que morreu, mas deixou semente. Resto de aroma em frasco aberto e já vazio, como disse Pedro Vergara. É ruminar o que nos marcou no passado, bolso onde a alma guarda aquilo que provou e aprovou, como disse Rubem Alves. E isso é bom. Se você sente saudade é sinal que não foi um inútil.
- PADRE ARISTIDES DERETTI é pároco em Londrina





