Dezembro, mês do Natal e do final de ano, é época de dar presentes e fazer doações a pessoas carentes e a entidades assistenciais. No caso dos necessitados, no mais das vezes o fazemos porque nos solicitam, e só então nos lembramos de tantas coisas que temos e que não necessitamos. É a época de ‘‘limpar’’ os armários e guarda-roupas. Doamos aquilo que já não nos serve.
Mas neste fim-de-ano vamos fazer diferente: doar também aquilo que nos serve, e só coisas novas. Compradas na loja, com etiqueta, embalagem e aquele cheiro de fábrica. Pessoas carentes também gostam de coisas exclusivas, que nunca foram usadas por ninguém. Porque, se só doamos aquilo que é entulho em nossas casas, não estamos fazendo grande coisa. Ao contrário, nos utilizamos do pobre para depósito de nossos lixos.
Por que é que, aos nossos familiares, à pessoa que amamos, nunca damos um presente usado, no Natal, no final de ano, nos aniversários e outros momentos especiais? Então, se queremos presentear, vamos fazê-lo com estilo, com elegância, à altura de nossa personalidade!
É bom receber e abrir uma caixa com um presente, fita enlaçada e cheirinho de coisa nova. Carente gosta ainda mais, porque nunca o recebe dessa forma. Ou poucas vezes.
Comprando o novo, ademais acionamos a economia, mobilizamos as fábricas e ativamos o comércio, contribuimos para a geração de empregos e impostos.
Não precisamos vestir e calçar o batalhão inteiro. Cada um que presenteie um, e já está bom.
Uma roupa que esteja rasgada ou desbotada, um sapato com sola furada, se já não servem para nós não servirão a mais ninguém. Se for um eletrodoméstico, um sistema de som, que já não funcionem ou estejam com algum defeito, o pobre a quem os doarmos não terá dinheiro para consertá-los. Se o obrigarmos a isso nós o estamos onerando, ficamos em dívida com ele pelo custo do conserto. Se achamos que esses objetos ainda são recuperáveis, e que é uma pena jogá-los fora, então vamos consertá-los para nós, usá-los até que durem!
Ficar com o velho consertado, e presentear com o novo alguém que nem conhecemos, parece difícil de digerir. Eis aí a hora para testarmos nosso verdadeiro sentimento, nosso apego e nosso desprendimento. Se digerimos isto com naturalidade, então é porque já transpusemos o portal e estamos avançados na caminhada.
Contudo, se não houver jeito e alguém nos pede algo, mesmo que usado, e isto vai fazer a pessoa feliz, vamos ao menos dar essa coisa bem lustrada, consertada, em condições de uso. Se for uma jóia, levá-la ao joalheiro para um polimento e colocá-la num estojo novo; ser for uma roupa, pregar os botões faltantes e fazer os remendos necessários; se for um sapato, botar um solado; se for um aparelho, e estiver com defeito, vamos primeiro consertá-lo, como se o fizéssemos para nosso uso. Estes procedimentos fazem a diferença!
Mas o que fazer com tantas coisas velhas? Uma boa pergunta. E uma boa resposta será, primeiro, só adquirirmos, para nosso uso, as coisas de que gostamos, sem a afoiteza de aproveitar ofertas de preço baixo e liquidações, porque este barato sai caro se não dermos utilidade para o que compramos. Será como adquirir pinguim de geladeira. Há algo mais inútil do que pinguim de geladeira? E se comprarmos só o que queremos e que tenha utilidade, vamos usar isto até que se gaste. E quando se gastar, jogar no lixo. As fábricas vão agradecer. Porque elas precisam sobreviver!
Não vamos doar o tênis malcheiroso de nosso filho ao menino carente. Ele o aceitará bem, com certeza, mas vamos imaginar os olhinhos dele se receber um par novinho, dentro da caixa, com aquele cheiro de borracha! E se receber uma calça jeans com a etiqueta da loja pendurada, então!
Receber presentes é bom; presentear é ótimo. Alegra a vida. Não precisa que o façamos só em ocasiões especiais, mas sempre que tivermos vontade.
Não vamos ser oportunistas e mesquinhos doando só aquilo que temos em excesso, que temos em duplicata, que entulha nossos armários e guarda-roupas, mas doar coisas novas, de boa qualidade, porque isso vai elevar nosso padrão. Se quem beneficiamos é alguém que muito precisa, e que nem sequer conhecemos, tanto melhor.
As lojas estão aí, lotadas de mercadorias, com preços e condições de pagamento convidativos. Vamos tirar 5% dos nossos ganhos e vestir e calçar tanta gente que precisa e que povoa orfanatos, asilos, creches, casas de assistência em geral, as ruas e favelas. Se 5% resultarem numa soma muito elevada, parabéns pelos seus ganhos! Deus que continue abençoando-o! No caso das entidades assistenciais, melhor é não ir comprando aleatoriamente, mas ligar-lhes e perguntar o que precisam. Porque não é só roupa e sapato, de qualquer medida, mas também alimento, remédio, dinheiro. Cada qual que identifique a pessoa ou pesssoas a quem deseja presentear, mas que o faça não porque isto pareça obrigação de fim-de-ano, mas porque há a impulsão de fazê-lo.
A hesitação em dar esconde idéias de pobreza. E só pretender fazer grandes doações também encerra vaidade, egoismo, ânsia de ser notado e reconhecido.
Neste dezembro, mês em que se manifesta mais intensamente a sensibilidade e se reacende nossa centelha divina, vamos ficar atentos e ouvir o sussurro da alma. Ela revelará o sussurro de Deus.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

mockup